Psicologia para Ativistas da Paz
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Capítulo 7
Integração Pessoal versus Esgotamento

Para sustentar ação e filiação, esses dois passos precisam ser integrados às outras
relações sociais do ativista, incluindo família, amigos e meios de subsistência. A questão
da integração pessoal é especialmente importante porque permite ao ativista sustentar
uma vida de envolvimento e evitar o perigo do esgotamento.

O risco de esgotamento é especialmente grande para os ativistas pela paz e justiça
porque, mais que os outros, eles são confrontados por pressões intencionais vindas das
forças do militarismo e da exploração. Essas pressões podem tornar-se implacáveis, como
as que levaram ao assassinato de Martin Luther King Jr. A maioria dos grandes pacifistas
sofreu ataques por parte da polícia e da mídia, e muitos foram mandados para a prisão em
algum período. A pressão se intensifica em alguns períodos da história: não é por acaso
que durante a Primeira Guerra Mundial Eugene Victor Debs, Dorothy Day e Bertrand Russell
foram encarcerados; Emily Balch e A. J. Muste perderam seus empregos, e Debs, Day,
Russell e Jane Addams tiveram esgotamentos físicos e psicológicos.

Sustentar uma vida inteira de ação pessoal e envolvimento exige uma rede de apoio social.
Assim, por exemplo, apesar da grande pressão contrária a ele, Martin Luther King Jr. foi
capaz de dar continuidade a seu trabalho com a ajuda de sua "equipe de terra". Esta
incluía não só sua esposa Coretta e o restante de sua família nuclear, mas também sua
igreja, e a igreja Ebenezer Baptist de Atlanta:

Sua maravilhosa família da Ebenezer o incentivara e dera à sua organização
apoio irrestrito durante todos os anos difíceis de sua luta. Eles eram
verdadeiramente o que ele chamava de "equipe de terra". Sem o seu
generoso trabalho de bastidores, ele não teria conseguido dar à nação e ao
mundo a mesma liderança que de fato deu.

A "equipe de terra" de King era ideal em muitos sentidos. Além do apoio recém conquistado
no movimento de direitos civis da comunidade em Montgomery, como também no resto do
mundo, ele pode integrar isto com uma família amorosa e cooperativa, um salário da igreja,
o apoio de suas atividades anteriores (no meio acadêmico), e as filiações (da igreja).
Contudo, nem todos deram seu apoio imediato ao seu compromisso mais amplo de
oposição à Guerra do Vietnã, por este apoio foi necessário que ele e Coretta lutassem.

Eugene Victor Debs conseguiu levar o compromisso de uma vida toda com o apoio de uma
rede similar à "equipe de terra" de King. Como observa o biógrafo Ray Ginger, a seguinte
descrição do apoio da esposa de Debs também se aplicaria ao apoio de seus pais, seu
irmão Theodore, e seu cunhado Arthur Baur:

Ela partilhava os dias tempestuosos sem queixas, e quando voltava depois
de muitas semanas de viagens exaustivas, minha casa estava gostosa e
aconchegante, ela cuidava de mim com todo carinho até que eu estivesse
descansado para uma nova viagem (...). Durante anos ela era nossa
secretaria de estado. Ela escrevia todas as minhas cartas em letra corrida
antes do advento da máquina de escrever, e eu tinha muita
correspondência. Ela andava na neve alta até o escritório quando eu estava
fora viajando, acendia a lareira, tirava as cinzas, limpava o escritório,
respondia as cartas, despachava caixas e caixas de livros para mim e para
outros, depois voltava para fazer as refeições, arrumar e cuidar da casa.

Para Debs como para King, a questão central foi manter a continuidade do apoio quando
ele ampliou o escopo de seu compromisso do sindicalismo para o socialismo em 1896, e
novamente para a oposição à Primeira Guerra Mundial em 1917. Segundo a biografia
escrita por Ginger, a família nuclear de Debs, assim como muitos de seus camaradas do
sindicato, apoiaram sua adesão ao socialismo. Mas quando ele se opôs à Guerra, viu-se
desprovido desse apoio, o que talvez explique porque ele se mostrou "hesitante e
desanimado", "indisposto" e "perdido" nos meses que precederam seu famoso discurso
contra a guerra em Canton, Ohio, depois do qual foi preso, julgado e sentenciado.

Para sustentar a luta, os ativistas devem dividir o fardo da responsabilidade política com
outras pessoas de sua organização
- desenvolvendo relacionamentos de ajuda mútua.
Caso contrário todo o "peso do mundo" parece repousar sobre seus ombros apenas, e
eventualmente o estresse se torna grande demais para uma só pessoa. Parece que foi isto
o que levou Helen Caldicott a anunciar na conferência nacional da WAND de 1985, que ela
estaria se retirando da liderança ativa da organização que fundara:

Tenho trabalhado nesses últimos 16 anos (...), viajado sem cessar, dormido
em camas estranhas, proferido dois a três discursos por dia, lidado com a
imprensa o dia inteiro, tenho tido que falar a audiências e emocioná-las a
ponto de fazê-las chorar e mudar suas vidas naquela noite ou naquele dia.
Eu sonho com isso todas as noites, sei que muitos de vocês também
sonham. Acordo suando frio, assustada, ansiosa, culpada. Sinto que o
mundo inteiro repousa sobre meus ombros. Bem, isto está certo, é o que
deveria sentir, mas estou afundando nisso, estou me afogando nisso. Tenho
que parar.

A exaustão não é apenas a ausência da sensação de apoio social, é também um estado
psicológico especial que poderá aprofundar-se aos poucos até a depressão seguida de
inatividade, des-afiliação, desespero, deboche, culpa, esgotamento, doença física ou
nervosa. Todos esses sintomas são descritos por Dorothy Day quando fala de sua "longa
solidão". O processo psicológico pelo qual as fases da depressão vão se aprofundando
cada vez mais, como um círculo vicioso, ainda não foi totalmente entendido pela ciência.
Sem dúvida, e conforme escrevi num trabalho técnico, ele envolve mudanças hormonais
profundas, que modificam toda a resposta fisiológica às situações sociais.

Ao descrever sua "longa solidão" Dorothy Day explicita suas causas sociais e a cura
integrativa que foi necessária:

Estava sozinha, mortalmente sozinha. E descobri então, como descobri
muitas outras vezes, que principalmente as mulheres são seres sociais, que
não se contentam somente com marido e filhos, mas precisam de uma
comunidade, um grupo, uma troca com os outros.

"Só um marido", no caso de Dorothy Day, era Forster, com quem ela se casara no civil e
tinha uma filha chamada Tamar. Mas Forster não apoiava sua atividade pois ele era um
anarquista cuja raiva voltara-se para dentro ao invés de ser usada para estimular a ação
(veja citação no capítulo 12). Por fim, Dorothy Day encontrou Peter Maurin e juntos
construíram o tipo de comunidade que ela buscava. Maurin ascendeu nela "um sentido da
sua própria capacidade de trabalho, de realização". Maurin chamava a isto de "uma
síntese de cult, cultura e cultivo". Para Dorothy Day significava uma síntese de todas as
suas atividades e filiações pregressas: ativismo social, jornalismo, família e filiação à igreja
Católica Apostólica Romana.

A integração pessoal não oferece apenas apoio prático, mas produz também uma rica e
gratificante transformação psicológica. Integrando cada nova filiação com suas redes de
relacionamento pessoal prévias King, Debs e Day (depois de encontrar Maurin)
conseguiram crescer não só publicamente em estatura e força, mas também na
individualidade privada. Não foram "engolidos" por suas novas filiações e não perderam sua
individualidade em nenhum pesadelo como o do medo de "multidões entusiasmadas" que
impediu Bertrand Russell de dar o passo da filiação: ao contrário, através da filiação eles
desenvolveram personalidades ainda mais singulares.

Quando organizações, como cultos políticos ou religiosos, desestimulam a integração
pessoal de seus membros, contribuem para o mito de que a filiação requer que as pessoas
percam sua individualidade. O caso extremo do processo de despersonalização é o exército
norte-americano, onde se "amansa" os novos recrutas privando-os de todos os
relacionamentos e filiações pessoais e colocando-os num uniforme padrão.

Muitos cultos religiosos e políticos surgidos nestes últimos anos adotam procedimentos
despersonalizantes similares. Existe o risco de que organizações do movimento pacifista
adotem tais métodos que, em longo prazo enfraquecerão em vez de fortalecer os novos
integrantes. Por exemplo, temos o sonho de Muste de um "companheirismo" em que ele
vislumbrava "a formação de um grupo de evangelistas, em parte segundo os moldes dos
antigos cristãos (...) livres (...) da ordem vigente (...), e vestindo-se de maneira uniforme
(embora não muito, como os uniformes militares ou hábitos clericais) para simbolizar sua
unidade interna e seu repúdio ao mundo". Não é de se admirar, diante de tal visão, que
Muste mais tarde tenha se tornado vítima do sectarismo, sob o qual sua análise se tornou
estreita e desligada do momento histórico.

Um dos métodos utilizados pelo Estado para reprimir movimentos de paz e justiça é colocar
as organizações na ilegalidade e forçar seus membros à atividade subterrânea, onde a
integração pessoal é muito mais difícil de alcançar. Por exemplo, na biografia de Sandy
Pollack não se encontra qualquer descrição da luta que foi para ela integrar sua filiação
com o Partido Comunista (que deve ter sido até certo ponto secreta) com suas outras
relações sociais. A tensão gerada por tal esforço pode ajudar a explicar porque ela
floresceu durante seu trabalho internacional em movimentos de solidariedade com Cuba e
Nicarágua, onde ela podia mostrar abertamente que se orgulhava de ser comunista.

A repressão da sexualidade em nossa sociedade torna a integração pessoal mais difícil. É
tal a magnitude desse problema que a profissão de psicanalista desenvolveu-se bastante
para lidar com ele. O custo pessoal da repressão sexual de nossa sociedade foi muito bem
descrita por W. E. B. Du Bois:

Um dos aspectos da minha vida pregressa suscita lembranças carregadas de
sentimentos conflitantes: são as questões de amizade e sexo. (...) de fato
o maior defeito da minha educação em New England foi a indesculpável
ignorância sobre o sexo (...). Na minha cidade natal o sexo era
deliberadamente excluído das conversas, e se possível do pensamento (...).
Como professor nos bairros rurais do Tennessee, fui literalmente estuprado
pela esposa infeliz que era minha senhoria. Daquele tempo até a faculdade
em Harvard e os estudos na Europa, passei por uma batalha incessante e
desesperada para manter o instinto sexual sob controle. Uma breve
experiência com a prostituição em Paris afrontou meu senso de decência.
Vivi com certa regularidade com uma balconista em Berlim, mas tinha
vergonha. Quando voltei aos Estados Unidos para lecionar, tive que
testemunhar a conivência de certos colegas que traíam suas esposas.
Casei-me de susto, literalmente, antes de ter condições de sustentar uma
família.

O custo da repressão sexual explica porque o casamento de 53 anos de Du Bois não
estava bem integrado ao seu desenvolvimento político. Ele "sofria da desvantagem básica
dos casamentos americanos modernos: uma diferença de objetivos e funções entre seus
membros". E a repressão sexual de nossa cultura também ajuda a explicar porque Du Bois
foi levado a cometer um grave erro ao dispensar "um rapaz, há muito tempo meu discípulo
e aluno, e então meu colaborador e sucessor em parte de minha obra" por ter sido este
preso em virtude de comportamento homossexual. Depois disso, Du Bois relata: "passei
dias pesados arrependido de meu ato".

Tanto Jane Addams e Emily Balch podem ter sido limitadas em suas tentativas de atingir
integração pessoal em seu trabalho contra a guerra pelas atitudes repressivas em relação
à sexualidade, inclusive homossexualidade, de nossa sociedade. Ambas foram vítimas de
esgotamento. Quando Jane Addams foi cruelmente atacada em virtude de sua oposição à
Primeira Guerra Mundial, abandonada por muitos de seus amigos de trabalho social, ela
adoeceu e ficou "três anos semi-inválida" e "francamente vítima de uma sensação de
opróbrio social (...) muito semelhante à autocomiseração". E Emily Balch sofreu de fadiga
nervosa, que a obrigou a interromper seu trabalho por longos períodos de tempo. Embora
ambas tivessem o apoio de uma companheira íntima do sexo feminino, Mary Rozet Smith no
caso de Jane Addams e Helen Cheever no caso de Emily Balch, parece provável que a
moral sexual vigente tenha limitado em certa medida o grau em que elas puderam ser
integradas plenamente às vidas dessas ativistas. Emily Balch lamentava ter tido apenas a
"meia vida de uma mulher solteira". Se seus relacionamentos eram homossexuais (e talvez
nunca saibamos), não puderam ser assumidos publicamente nem integrados à suas vidas
políticas. Como explicou sua amiga comum Alice Hamilton à biógrafa de Addams, tais
assuntos não eram discutidos naqueles dias, e "o próprio fato de você levantar esse
assunto é indicativo da separação entre a sua geração e a dela".

O trabalho de ganhar a vida é transformado quando se integra ao trabalho pela paz e pela
justiça. Levantar dinheiro para "o movimento" não é o mesmo que levantar dinheiro para si
e sua família. Ele sai do domínio privado "egoísta" da sociedade capitalista e entra no
domínio coletivo, altruísta, tornando-se parte de nosso trabalho político. Dorothy Day
descreve como, depois de fundar o Catholic Worker (Trabalhador Católico), ela partiu em
viagem para angariar contribuições a fim de manter o jornal. E Helen Caldicott conta como,
depois de juntar-se ao movimento dos médicos, ela abordava seus colegas médicos em
reuniões pedindo assinaturas para petições, e um dólar para imprimir as petições.

Para a maioria das pessoas, inclusive muitos ativistas pela paz e pela justiça, o passo da
integração pessoal é o mais alto grau de desenvolvimento da consciência. Mas o
movimento de paz precisa lideranças, e para tanto é necessário um grau mais elevado de
consciência: a consciência mundial histórica.


Capítulo 8
Consciência Mundial Histórica versus Sectarismo

A consciência mundial histórica, o mais alto nível de consciência, não é uma qualidade de
um indivíduo agindo sozinho, mas aquela de um líder trabalhando com filiação. É um tipo de
liderança que permite que ação e filiação pela paz e justiça se desenvolvam no sentido da
eficácia e progresso em vez de limitação e sectarismo. É a habilidade que o líder tem de
saber como se sentem as pessoas, analisar as forças e vetores de todas as forças
políticas, e organizar e ampliar o caráter político do movimento para que esteja no
compasso do momento histórico, o que, nos dias atuais, significa a abolição da guerra.

Em primeiro lugar, um líder deve saber como as pessoas estão se sentindo. Isso só se
obtém através de uma longa experiência de trabalho direto com elas. A liderança de
Eugene Victor Debs se origina de tal experiência:

Eu havia alimentado a fornalha da locomotiva, sido exposto à dureza da
ferrovia. Eu ficava com os rapazes nas longas vigílias, ao lado da locomotiva
quebrada, e muitas vezes os levava de volta para mulher e filhos, seus
corpos machucados e sangrando. Como não sentiria o fardo de suas faltas?
Como deixaria de sentir, fundo no peito, germinar a semente da agitação?

Seus anos de serviço para o povo permitiram a Jane Addams desempenhar um papel de
liderança no movimento de paz:

(...) em todas as classes e níveis sociais e em todo o círculo de ocupações
legítimas, homens e mulheres maduras, com força moral e conhecimento
especializado, que em virtude de terem se tornado úteis na vida, podem
contribuir enriquecendo o padrão da cultura humana (...). Aquele que quer
incorporar essas experiências à herança comum deve (...) ter grande
familiaridade com o espírito humano e suas produções.

Em segundo lugar, um líder deve compreender o poder e vetores de todas as forças
políticas de forma sistêmica, não superficial. Tal compreensão deve ser "radical" – chegar
à raiz das coisas – suas causas econômicas e sociais. Não deve contentar-se com um
discurso de mudanças superficiais, mas precisa reconhecer que a paz exige mudanças
econômicas e políticas fundamentais dentro da sociedade. Nas palavras de Emily Balch:

Quando começou a guerra em 1914, vi isto principalmente como uma
interrupção absurda do progresso social e econômico. Sentia que era
preciso livrarmo-nos da guerra para que sua ameaça não interrompesse nem
distorcesse o curso desse progresso. Só aos poucos pude entender, ao
menos parcialmente, quão profundamente a guerra está entrelaçada com
todo nosso sistema econômico e social, nossa escala de valores, nossas
idéias do que é certo e do que tem suprema importância. Não vejo qualquer
chance de progresso social sem que haja mudanças fundamentais tanto do
lado econômico quanto político, substituindo anarquia nacional por
cooperação organizada dos povos em prol de seu interesse comum, e
substituindo a anarquia econômica, baseada na busca de lucro pessoal, por
um grande desenvolvimento do espírito de cooperação.

Em retrospectiva, Eugene Vitor Debs percebeu que esta perspectiva radical lhe faltava na
mal sucedida liderança do Sindicato Americano dos Ferroviários.

Minha convicção suprema era de que se ao menos os ferroviários se
organizassem em todos os ramos do ofício, e agissem todos juntos e unidos,
poderiam corrigir suas faltas e regular as condições de seu emprego (...). Eu
viria a compreender mais tarde o funcionamento do sistema capitalista, os
recursos de seus senhores e as fraquezas de seus escravos (...). Tudo isso
me parece estranho agora, olhando para trás, que minha visão estivesse
fixada num único ponto objetivo e que em absoluto não consegui enxergar o
que hoje me parece mais claro que o sol do meio-dia (...).

A consciência mundial histórica requer o que Helen Caldicott chamou de "uma visão global
da realidade e um senso de responsabilidade moral pelo futuro da humanidade". Jane
Addams chamava a isto de "uma nova consciência, uma consciência mundial nascente".

Quer gostemos disso ou não, nossa própria experiência é cada vez mais influenciada pelas
experiências de pessoas de todos os cantos; o mundo moderno está desenvolvendo uma
consciência quase mística da continuidade e interdependência da humanidade. Há um vivo
senso de ação e reação inesperada, mas inevitável entre nós e os outros que estão
vivendo neste planeta na mesma época. Talvez nenhuma apresentação seja mais difícil
que esta que trata do crescimento de uma nova consciência, essa consciência mundial
nascente...

Como disse Emily Balch, essa visão global da realidade não é uma visão do que já existe,
mas uma "tendência do desenvolvimento" em direção a uma "civilização planetária".

Ao olhar para trás, não tenho a sensação que nossos esforços foram
absurdos. Ao contrário, tenho a impressão de que apesar do mundo não
estar pronto para entendê-los, a tendência do desenvolvimento corre
obviamente e de forma certeira para o fim que buscamos – uma civilização
planetária.

No desenvolvimento da consciência mundial histórica um fator importante é a viagem pelo
mundo, na qual a viagem é usada como meio de estudar e refletir tanto sobre a direção
que tomam os eventos mundiais, quanto sobre o meio de atingir mudanças sociais
localmente. Como lembra Du Bois:

O trabalho mais importante da década, agora que olho em retrospecto, foi
minha viagem. Antes de 1918 já havia viajado três vezes para a Europa,
mas agora entre 1918 e 1928 fiz quatro viagens de extraordinário
significado: para a França logo no fim da guerra e durante o Congresso de
Versailles; para a Inglaterra, Bélgica, França e Genebra nos primórdios da
Liga das Nações; para a Espanha, Portugal e África em 1923 e 1924; e para
a Alemanha, Rússia e Constantinopla em 1926. Dificilmente conseguiria
compor uma parte mais vital do quadro do mundo moderno sem aquelas
viagens emocionantes. Elas me deram profundidade de conhecimento e
amplitude de visão, que foram de valor incalculável para entender e julgar a
condição da modernidade, e principalmente o problema racial na América.

A consciência mundial histórica é resultado do esforço em planos cada vez mais amplos de
significado, à medida que o desenvolvimento do indivíduo se torna cada vez mais imbricado
no desenvolvimento de toda a humanidade. Descrevendo o desenvolvimento de Martin
Luther King Jr. sua esposa, Coretta, o compara a um pergaminho que se desenrola:

Quando Martin recebeu o Prêmio Nobel (...), e fez o discurso sobre o Vietnã, tive a forte
sensação que isto era o começo de um trabalho maior para ele, que se tornaria algo maior
do que o que podíamos conceber naquela época. Ao longo de toda nossa, luta uma fase
levava à outra. À medida que os anos foram passando, era como ver um pergaminho se
desenrolando, a gente vê mais e mais à medida que desenrola. Havia um padrão e um
processo operando para o desenvolvimento da humanidade.

Para King havia uma progressão de um patamar de trabalho pelos direitos civis em favor
dos afro-americanos, para um patamar mais amplo pela justiça e pela classe trabalhadora
(ele foi morto em Mênfis onde falava em favor da greve dos lixeiros, que ele definia como
não mais uma guerra racial, mas agora uma guerra de classes "), e deste para o patamar
mais amplo de todos, sua oposição à guerra do Vietnã e trabalho pela paz e liberdade de
todos os povos do mundo".

O tributo de King à consciência mundial histórica de Du Bois, no centésimo aniversário de
seu nascimento, bem poderia ser um tributo a ele mesmo:

Concluindo, permita-me dizer que a maior virtude do Dr. Du Bois era sua
empatia e comprometimento com todos os oprimidos, e sua insatisfação
divina com todas as formas de injustiça. Hoje ainda somos desafiados a ser
insatisfeitos. Que sejamos insatisfeitos até que cada homem possa ter
alimento e condições materiais para seu corpo, cultura e educação para sua
mente, liberdade e dignidade humana para seu espírito (...). Estejamos
insatisfeitos até que nossos irmãos do terceiro mundo, Ásia, África e
América Latina, não mais sejam vítimas da exploração imperialista, mas
sejam soerguidos da longa noite da pobreza, analfabetismo e doença.
Estejamos insatisfeitos até que esta elegia cósmica seja transformada em
salmo criativo da paz e que a "justiça desça como as águas de um poderoso
caudal".

No caso de Du Bois, a jornada em direção à consciência histórica mundial o levou de um
patamar de ação a outro. Superou uma visão estreita, sectária, e limitada à questão das
relações raciais (ele apoiara a primeira guerra mundial como oportunidade de promover
afro-americanos a oficiais militares), e alcançou a uma consciência amadurecida, que
incluiu o mundo inteiro e todas as raças em seu escopo:

Vacilei durante anos, advogando o socialismo, primeiro como programa
racial; depois como esforço nacional, e depois da viagem de 1958, como
passo definitivo para unir os movimentos do mundo todo em direção a um
socialismo que levasse ao comunismo, que abraçasse o mundo das pessoas
de cor e o mundo dos brancos que estivessem dispostos a renunciar ao
colonialismo e ao capitalismo privado. Mas, como disse, essa decisão se
produziu muito lentamente.

Por ter reconhecido o fato de que o socialismo se tornara a força de paz dominante, e por
ter agido de acordo (Du Bois liderou o movimento que recolheu milhões de assinaturas
Norte Americanas pelo Apelo de Paz de Estocolmo), foi levado a julgamento aos 83 anos
de idade como "agente" russo. A visão de Du Bois alcançava bem mais longe que a de seus
críticos, no entanto, ele não via apenas o papel vital desempenhado pelos países
socialistas para o avanço da paz, mas também o papel importante a ser desempenhado
pelos movimentos emergentes, não alinhados com o socialismo, na construção da paz:

(...) a Pan-Africa, trabalhando conjuntamente através de suas unidades
independentes, deveria buscar o desenvolvimento de uma nova economia
africana e centro cultural, situado entre a Europa e a Ásia, que recebesse
contribuições destas e oferecesse contribuições a elas. Deveria dar ênfase
à paz, não fazer qualquer aliança militar e recusar-se a lutar para resolver
pendências européias. (...) deveria tentar construir um socialismo fundado
na antiga vida comunitária africana (...) em cooperação pacífica e sem
pretender ditar como o socialismo deve ou pode ser atingido em
determinado tempo e lugar.

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