Os Cinco Saberes do Pensamento Complexo
[Pontos de encontro entre as obras de Edgar Morin,
Fernando Pessoa e outros escritores]
Humberto Mariotti
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Os braços pertencem a um corpo. No estado atual de nossa cultura, este é comandado
pelas determinações do ego não trabalhado, que precisa dele para utilizá-lo como arma
ou ferramenta, dado que é assim que exerce a competição e a agressividade. O ego
"possui" o corpo, e essa relação dividida transforma a vida das pessoas em uma
sucessão de apegos, disputas e conflitos.

Já a experiência do ego trabalhado muda esse horizonte, porque torna-se claro que não
possuímos o nosso corpo: nós o somos. Entendida dessa forma, a corporeidade passa a
ser vivida como uma intercorporeidade — e, assim, nos damos conta de que o corpo é
o lugar onde se fundem o morador e a morada, a teoria e a prática, o abstrato e o
concreto, o ser e o nada.

Da intercorporeidade emerge a espiritualidade. Esta, como escrevi antes, corresponde a
uma atitude de respeito pelo mundo natural e participação em seus processos. Tudo
isso começa, é claro, pela relação com o outro. Não estou dizendo que não se deva
buscar por outros meios a transcendência, mesmo porque esta é uma dimensão
necessária e fundamental para o ser humano. O ponto no qual insisto é que nenhuma
iniciativa de religação pode ser tomada sem que primeiro se chegue ao ponto mais
importante de todo o processo, que é a legitimação da figura do outro. 

Se a busca do outro é a procura da integração no mundo, dizer que o amor é uma
dimensão biológica só na aparência é uma redução. Uma reflexão mais aprofundada
revela que apenas por meio do outro é possível ampliar e transcender as limitações de
nossa fragmentação e solidão existencial.

A busca da alteridade é inerente à condição humana. Já sabemos que a localização
anatômica de nossos olhos revela que eles estão orientados para enxergar o outro.
Também não podemos abraçar a nós mesmos: só o outro pode abraçar-nos. Eis por que
precisamos dele: para que nos abrace e, assim, nos ajude a saber que existimos.

Somos seres desejantes. Mas, como intuiu o psicanalista W. Fairbairn, a finalidade do
desejo não é o prazer, e sim a relação com o outro. O prazer é um meio para esse fim.
Não buscamos a convivência por causa do prazer — é ele que nos leva a procurá-la. O
si-mesmo não é apenas único, é também coletivo. Nesse sentido, o indivíduo não tem
primazia sobre a cultura em que vive. Quanto mais nos identificarmos apenas com o
ego, mais dificuldade teremos de entender que o si-mesmo é a um só tempo individual e
comunitário.

Já em 1953, o escritor argentino Ernesto Sábato15, certamente influenciado por Martin
Buber, via no processo histórico um impulso em direção ao feminino, ao qual chamou de
gamocentrismo. Esse abraço dos sexos pode ser visto como uma metáfora para exprimir
a complementaridade dos pensamentos linear e sistêmico, que compõe o pensamento
complexo, o qual, por sua vez, permite o entendimento e a prática da visão de mundo
neomatrística. Para Sábato, as sociedades humanas se movem, desde a Idade Média,
segundo a seguinte dinâmica:

- Comunidade medieval (predomínio do Nós);
- individualismo mercantil do Renascimento (predomínio do Eu);
- ciência e capitalismo abstratos da modernidade (predomínio do Isso);
- rebelião romântica, existencial, concreta e feminina (predomínio do Eu);
- síntese fenomenológica, rumo a uma comunidade feminino-masculina 
(predomínio do Nós).
 
Neste ponto, é necessário fazer uma digressão. Sabemos que o início da experiência
mental é inconsciente e se estrutura com o feto no útero materno, imerso em seu
pequeno mar de líquido amniótico. Nesse ambiente, ele está em paz, satisfeito e em
"união oceânica" com a mãe, como escreveu Freud. Ao determinar a expulsão brusca
da criança dessa "oceanidade", o nascimento representaria um trauma terrível. É dessa
separação que se originaram mitos conhecidos, como o da queda e o que fala de uma
idade de ouro há muito perdida.

Nessa ordem de idéias, a partir do nascimento, o ser humano se vê diante de dois
caminhos: ou supera o trauma primal e torna-se um indivíduo no mundo, ou o nega e
sua vida passa a ser uma longa jornada de volta à unidade perdida. No segundo caso,
tem-se o que ocorre com certos místicos, para os quais a busca de uma fusão com o
Universo significa a negação da existência individual — julgada insignificante — e uma
idealização da religação com o todo.

Essa posição tem sido interpretada por muitos como alienante. Em termos psicológicos,
corresponde a uma renúncia radical ao ego, que por sua vez tem sido vista como uma
alternativa a ter que enfrentar o terror de sentir-se abandonado num mundo estranho e
hostil. Para outros, ela também representaria uma necessidade de onipotência, cujo
resultado mais imediato seria um certo desprezo por tudo o que é material.  

O desejo narcísico de diluição na totalidade pode também ser interpretado como a raiz
de nossa tendência de achar que pouco ou nada podemos fazer por nós próprios, o que
nos levaria a buscar apoio em âmbitos abstratos e idealizados. Como resultado, nossos
semelhantes passariam a ser encarados como fracos e desprezíveis ou, na melhor das
hipóteses, como companheiros de infortúnio. Tenderíamos a transferir o nosso centro
de auto-regulação para um domínio externo, o que acabaria nos alienando cada vez
mais da realidade.

É muito importante não confundir a necessidade de ser visto (reconhecido) e abraçado
(acolhido) pelo outro com o desejo de retornar a essa "oceanidade". Abraçar e ser
abraçado derivam da primeira escolha atrás mencionada, isto é, da opção de tornar-se
um indivíduo neste mundo. Sustento que ver e ser visto, tocar e ser tocado, abraçar e
ser abraçado (pelo outro e pelo mundo) são metáforas de integração, não de diluição
ou apagamento. 

A religação de que fala o pensamento complexo é uma reaproximação de saberes, a ser
posta em prática na concretude dos sistemas da natureza. Não se trata de uma
vontade de retorno, mas sim de uma efetiva participação na dinâmica dos ciclos do
mundo natural. É uma interdependência espontânea, que produz autoprodução e
autonomia, e não uma co-dependência induzida pelo medo, que resulta em
aprisionamento. 

Foi dito e repetido que a negação radical do ego, ou sua transformação em vilão, traz
consigo o perigo de alienação e, em conseqüência, a negação do outro. A suposição,
por exemplo, de que a ancestral cultura matrística seria um reino encantado, um
grande útero materno ao qual todos devemos retornar, é um equívoco que, em última
análise, traduz o desejo de submissão a um matriarcado ideal, que nada tem a ver com
o modo matrístico de convivência.  

Por isso, é necessário que não confundamos as atuais propostas de sociedades de
parceria com fantasias de regressão a uma idade de ouro perdida. Essas iniciativas
incorporam várias das características da cultura matrística, mas a consciência que as
orienta está baseada em uma visão de futuro realista, e nada receosa ou submissa. 

Do mesmo modo, o pensamento complexo está muito longe dessa idéia de fusão
"oceânica". Sua proposta inclui a procura do autoconhecimento, que resulta da
compreensão de que o ego é frágil e por isso precisa ser trabalhado e reestruturado,
para que possa ser capaz de cumprir o seu papel. Um ego frágil, alienado ou negado em
nada ajudará na reforma do sistema de pensamento.  

O eu contém o múltiplo (a sociedade, a cultura) que, por sua vez, o contém. Eis a
unitas multiplex — a unidade na multiplicidade, a tradução do abraço comunitário que
envolve a cada um de nós. Tudo isso se expressa de um modo dinâmico: o eu se
transforma com a cultura, que por sua vez o modifica, numa relação de congruência. O
abraço não é um substantivo, e sim um verbo — um verbo no gerúndio: melhor seria
que estivéssemos sempre abraçando e nos deixando abraçar.

A insistência em negar essa necessidade gera a interminável seqüência das nossas
aflições. Fingimos não saber que quanto mais "competitividade", mais esperteza e
menos inteligência. A esperteza fragmenta, mutila, não respeita a unidade das coisas
naturais. A inteligência aproxima, abraça. Não pode ser medida, porque sua única
dimensão é a totalidade.

Não é que a inteligência seja melhor do que a esperteza, nem vice versa. Vejo as duas
do ponto de vista operacional — e afirmo que elas não precisam complementar-se,
porque a primeira já inclui a segunda, isto é, o homem inteligente é aquele que sabe
que, no fluxo das coisas, é preciso ser inteligente sem deixar de ser esperto. Sabe que
é necessário temperar a habilidade de resolver problemas mecânico-fisiológicos com os
limites éticos que a inteligência aponta para as conseqüências das ações que os
geraram.  

A "competitividade" é uma dimensão da esperteza. A competência está no âmbito da
inteligência. Dizer que precisamos trabalhar por mais inteligência e menos esperteza
equivale a propor que é necessário buscar mais individualidade e menos individualismo.
A individualidade é o ponto de partida natural para a interpessoalidade. O individualismo
é o marco inicial da competição predatória. O homem que se individualiza é aquele que
se diferencia da massa, mas não imagina que pode se isolar de seus semelhantes. É o
que se torna indivíduo sem se deixar alienar.

Não há, pois, individualidade sem interpessoalidade. Ser indivíduo é buscar a
inteligência (que nasce da interpessoalidade) e saber lidar com a esperteza (que se
origina no individualismo). Não nos esqueçamos de que o homem que se torna um
indivíduo é uma síntese viva e criadora da condição humana, enquanto aquele que
mergulha no individualismo imagina-se sempre primeiro e único – o que, como já foi dito,
equivale a correr o risco de ser também o último.  

Esperteza ("competitividade") é querer vencer eliminando os vencidos. Inteligência
(competência) é poder vencê-los e estender-lhes a mão, para que eles possam amanhã
ser também vencedores. A mão fechada é o começo da separação. A mão estendida é
o início do abraço. É o ponto de partida para o pensamento complexo — marco
inaugural do longo processo de busca da solidariedade.

Notas
1. SENGE, Peter, et al. The Fifth Discipline Fieldbook. Nova York: Doubleday Currency, 1994, p.p. 3-4.
2. PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974, p. 212.
3. Id., ibid., p. 217.
4. MARIOTTI, Humberto. As Paixões do Ego: Complexidade, Política e Solidariedade. São Paulo: Palas
Athena, 2000, pp. 245-246.
5.PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974, p.207.
6.Id., ibid., p. 207.
7.Id. ibid., p. 222.
8.Id., ibid., p. 234.
9.Id., ibid., p. 238.
10.   ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou da Educação. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992, pág. 9,
nota 1.
11.   MONTAGU, Ashley A Superioridade Natural da Mulher. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1970, p. 3.
12.   Ver TODOROV, Tzvetan. A Vida em Comum: Ensaio de Antropologia Geral. Campinas (S.
Paulo): Papirus, 1996, pp. 24-25.
13.   MONTAGU, op. cit., p. 138.
14.   SHAKESPEARE, William. The Complete Works of William Shakespeare. (William G. Clark, William
A. Wright, eds.) Nova York: Grosset & Dunlap, 1911, Love's Labour's Lost, p. 182.
15.   SÁBATO, Ernesto. Heterodoxia. Campinas (S. Paulo): Papirus, 1993, p.91.

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( © Mariotti, H., 2002 ) 

Observação. Este texto corresponde a uma palestra dada pelo autor nas 3as. Conferências
Internacionais de Epistemologia e Filosofia. Instituto Piaget, Campus Acadêmico de Viseu, Portugal,
em abril de 2002.  

HUMBERTO MARIOTTI. Médico e psicoterapeuta. Pesquisador nas áreas de Complexidade e Ciência
Cognitiva. Coordenador do Grupo de Estudos Contemporâneos — Complexidade, Pensamento
Sistêmico e Cultura — da Associação Palas Athena (S. Paulo, Brasil). 
 
Email- homariot@uol.com.br

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