A Casa Mundial
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II

Dentre os imperativos éticos de nosso tempo, somos desafiados a trabalhar
obstinadamente no mundo inteiro para varrer todos os vestígios de racismo. Já em 1906
W. E. B. Du Bois profetizava que "o problema do século XX será o problema da divisão de
cor". Hoje sabemos que o racismo é o cão infernal no encalço de nossa civilização.
O racismo não é um problema somente na América do Norte, seu domínio não conhece
barreiras geográficas. De fato, o racismo e seu eterno aliado – a exploração econômica –
fornecem a chave para o entendimento da maioria dos entreveros internacionais desta
geração.

O exemplo clássico de racismo organizado e institucionalizado é a África do Sul. A política
interna e a prática ali são encarnação da doutrina da supremacia do branco em meio a
uma população majoritariamente negra. Mas a tragédia da África do Sul não é apenas
sua política, é o fato de que ela é viabilizada pela política econômica dos Estados Unidos
e da Grã-Bretanha, dois países que se declaram bastiões da moralidade no mundo
ocidental.

Portugal com sua prática de trabalho escravo em Angola; o governo de Ian Smith na
Rodésia com apoio da indústria Britânica e capital privado, apesar da oposição do
governo Britânico. Mesmo no caso do pequeno país da África do Sul Oriental, as nações
poderosas do mundo mostram-se incapazes de tomar uma posição ética em relação à
África do Sul, embora este pequeno país esteja sob a tutela das Nações Unidas. Suas
políticas são controladas pela África do Sul e sua força de trabalho aliciada para as
minas, onde trabalha em regime de semi-escravidão.
Durante a administração Kennedy surgiu alguma consciência dos problemas que
germinavam sob a influência de condições racistas e de exploração no mundo de cor, e
uma preocupação passageira emergiu livrando os Estados Unidos de sua cumplicidade,
muito embora o esforço tenha sido apenas no nível diplomático. Através de nosso
embaixador nas Nações Unidas, Adlai Stevenson, esboçou-se o início de uma abordagem
inteligente aos povos de cor do mundo. Contudo, verificaram-se poucas tentativas de
lidar com os aspectos econômicos da exploração racial. Mantivemos um silêncio absoluto
sobre os 700 milhões de dólares que sustentam o regime do Appartheid, sem mencionar
os bilhões de dólares gastos em comércio e alianças militares sob o pretexto de combater
o comunismo na África.

Nada oferece aos comunistas melhor ambiente para expansão e infiltração do que a
permanente aliança dos Estados Unidos com o racismo e a exploração no mundo inteiro.
E se não usarmos de determinação para erradicar os últimos vestígios de racismo das
negociações de nosso país com o resto do mundo, talvez logo vejamos os pecados de
nossos pais recaírem sobre a nossa geração e as gerações futuras. Pois as condições
que estão classicamente representadas na África estão presentes também na Ásia e na
América Latina.

Em todos os cantos da América Latina há um tremendo ressentimento contra os Estados
Unidos, e o ressentimento é tanto maior quanto mais pobre e negra a população do
continente. A vida e destino da América Latina estão nas mãos das corporações Norte-
Americanas. As decisões que afetam a vida dos Latino-Americanos são ostensivamente
feitas por seus governos, mas praticamente não há democracias legítimas naquele
continente. Os outros governos são dominados por cartéis gigantescos e exploradores
que roubam da América Latina seus recursos enquanto repassam uma pequena parcela a
uma aristocracia corrupta, que por sua vez não investe em seu país para o bem do povo,
mas sim nos bancos suíços e nos parques de diversão do mundo.

Aqui vemos o racismo em sua forma mais sofisticada: o neo-colonialismo. A Bíblia e os
anais da história estão repletos das estórias trágicas de um irmão que rouba ao outro
seu direito de nascimento, assim produzindo gerações de luta e inimizade. Dificilmente
escaparemos de tal julgamento pela América Latina, não mais do que pudemos escapar
da semeadura de ódio no Vietnam durante um século de exploração francesa.

Há uma tentação conveniente de atribuir a confusão e amargura prevalecente no mundo
à presença de uma conspiração comunista que visa subjugar a Europa e a América, mas
o potencial explosivo da situação mundial é muito mais explicável pela desilusão com as
promessas do cristianismo e da tecnologia.

Os líderes revolucionários da África, Ásia e América Latina praticamente todos receberam
educação superior em capitais ocidentais. Sua educação primária foi freqüentemente em
escolas católicas missionárias. Ali seu sentido de dignidade foi moldado e aprenderam que
todos os homens são filhos de Deus. Nos anos recentes seus países foram invadidos por
automóveis, coca-cola e Hollywood, de modo que mesmo os vilarejos mais remotos
ficaram cientes das maravilhas e bênçãos disponíveis aos filhos brancos de Deus.
Depois de atiçadas as aspirações e apetites do mundo pelas maravilhas da tecnologia
ocidental, e a auto-imagem das pessoas tendo sido acordada pela religião, não se pode
esperar que essas mesmas pessoas aceitem ficar trancadas para fora do reino secular da
riqueza, saúde e felicidade. Ou bem partilham as bênçãos do mundo, ou organizam-se
para quebrar e derrubar aquelas estruturas e governos que se colocam como obstáculo
para o atingimento de seus fins.

Gerações anteriores não podiam sequer conceber tal luxo, mas seus filhos agora tiveram
este vislumbre e exigem que se torne realidade. E quando olham em volta e vêem que os
únicos a não partilhar da abundância da tecnologia ocidental são as pessoas de cor, é
praticamente impossível não concluírem que sua condição e exploração estão de alguma
forma relacionadas à cor de sua pele e ao racismo do mundo branco ocidental.

Este não é um fundamento seguro para a casa mundial. O racismo pode bem ser o
agente corrosivo que fará ruir a civilização ocidental. Arnold Toynbee disse que cerca de
vinte e seis civilizações surgiram sobre a face da terra. Quase todas foram destruídas. A
ascensão e queda dessas civilizações, segundo Toynbee, não foi causada por invasões
estrangeiras, mas por uma decadência interna. Elas não conseguiram reagir criativamente
aos desafios que enfrentaram. Se a civilização ocidental não responder construtivamente
ao desafio de banir o racismo, algum historiador do futuro terá de escrever que uma
grande civilização morreu por não ter tido o desejo e o comprometimento de fazer da
justiça uma realidade para todos os homens.

Um outro grave problema que deve ser resolvido se quisermos viver criativamente em
nossa casa mundial é o da pobreza em escala global. Como um gigantesco polvo, ela
estende seus tentáculos, apertando e sufocando países e vilarejos por todo o mundo.
Dois terços da população do mundo adormecem com fome. Estão subnutridos, mal
abrigados e mal vestidos. Muitos não têm casa ou cama na qual dormir. Suas camas são
as calçadas e estradas poeirentas. Muitas destas crianças pobres nunca viram um
médico ou dentista.

A pobreza não é novidade. A novidade é que agora temos recursos para acabar com ela.
Há poucos anos o Dr. Kirtley Mather, um geólogo de Harvard, escreveu um livro intitulado
"Suficiente e Abundante" (Enough and to Spare).2 Ali ele desenvolve a idéia de que a
fome é totalmente dispensável no mundo moderno. A questão em pauta hoje deve ser:
Por que há fome e privação em qualquer terra, cidade, mesa, quando o homem tem os
recursos e o conhecimento científico para prover toda a humanidade com o básico
necessário à vida? Até desertos podem ser irrigados e a camada arenosa do solo
substituída. Não podemos nos queixar de falta de terras, pois existem 25 milhões de
milhas de terras aráveis no mundo, dos quais usamos apenas sete milhões. Temos
conhecimentos espantosos sobre vitaminas, nutrição, a química do alimento e a
versatilidade dos elementos. Não há falta de recursos humanos; a falta é de vontade.

Isso não significa que podemos desconsiderar a taxa de crescimento da população
mundial. A explosão populacional é um dado real, e deve ser enfrentada se quisermos
evitar a situação de superlotação daqui a alguns séculos. Muitas das grandes nações
subdesenvolvidas de hoje estão confrontadas com o problema do excesso populacional
em relação a seus recursos. Mas mesmo este problema pode ser grandemente mitigado
pondo-se um fim à pobreza. Quando as pessoas vêm mais oportunidades de ter uma boa
educação e maior segurança econômica, começam a pensar se talvez uma família menor
não seria melhor, tanto para pais como para filhos. Em outras palavras, não acredito que
se possa estabilizar a população sem primeiro estabilizar os recursos econômicos.

Chegou a hora de travar uma batalha total e sem tréguas contra a pobreza. As nações
abastadas devem usar seus vastos recursos para desenvolver as subdesenvolvidas,
ensinar os que não receberam educação e alimentar os famintos. Os ricos e seguros
freqüentemente tornam-se indiferentes e cegos à pobreza e privação à sua volta. Os
pobres de nossos países têm sido trancados para fora de nossas mentes e afugentados
do centro das sociedades, e temos permitido que se tornem invisíveis.
Fundamentalmente uma grande nação é uma nação compassiva. Nenhum indivíduo ou
nação pode ser grande se não se preocupa com "os irmãos mais pequeninos".

O primeiro passo na guerra mundial contra a pobreza é um comprometimento apaixonado.
Todas as nações abastadas – América do Norte, Grã-Bretanha, Rússia, Canadá, Austrália
e as da Europa Ocidental – devem assumir como obrigação moral o fornecimento de
capital e assistência técnica às áreas subdesenvolvidas. Até aqui o empenho destas
ricas nações somente arranhou a superfície do problema. Faz-se necessária agora uma
estratégia abrangente de apoio. Uma pequena ajuda aqui e ali não é suficiente, nem
sustentará o crescimento econômico. É preciso produzir um esforço continuado de
muitos anos. As nações abastadas devem dar início imediatamente a um "plano Marshall"
para a Ásia, África e América do Sul. Se dedicassem apenas 2% de seu PIB anual por um
período de dez ou vinte anos para o desenvolvimento das nações subdesenvolvidas, a
humanidade faria grande progresso em direção à derrota de seu antigo inimigo: a
pobreza.

O programa de ajuda que sugiro não deve ser usado pelas nações abastadas como forma
sub-reptícia de controlar as nações mais pobres. Tal abordagem levaria a um novo tipo
de paternalismo e a um neocolonialismo que nenhuma nação que se preze poderia
aceitar. Programas de ajuda estrangeira devem estar fundamentalmente motivados por
um esforço compassivo e sério de eliminar a pobreza, a ignorância e a doença. Dinheiro
desacompanhado de verdadeira empatia é como sal privado de sabor; não serve para
nada - a não ser para inspirar o desprezo dos homens.

O Ocidente deve entrar neste programa com humildade e penitência, e com a percepção
sóbria de que nem tudo estará sempre "do nosso lado". Não se deve esquecer que as
potências Ocidentais são nada mais que os senhores coloniais do passado. A casa do
Oeste está longe de estar em ordem, e suas mãos não estão limpas.

Devemos ter paciência. Estar dispostos a compreender porque muitas das nações jovens
terão de passar pelo mesmo extremismo, revoluções e agressão que formaram a nossa
própria história. Todo novo governo é confrontado por enormes problemas. Nos dias em
que lutávamos para nos livrar do jugo do colonialismo, havia uma espécie de unidade de
propósito pré-existente que manteve as coisas na direção certa. Mas quando chega a
independência, todos os amargos problemas da vida surgem com duro realismo: a falta
de capital, a pobreza que sufoca, as incontroláveis taxas de natalidade e, acima de
tudo, as grandes aspirações do povo. O período pós-colonial é mais difícil e precário que
a própria luta colonial.

O Ocidente deve entender também que seu crescimento econômico deu-se sob
circunstâncias bastante propícias. A maioria das nações era relativamente pouco
populosa quando ascendeu economicamente, e tinha grandes reservas de ferro e carvão,
necessários para a indústria. Hoje, a maioria dos governos jovens chega sem estas
vantagens e, acima de tudo, deve lidar com a superpopulação. Não há forma de fazer
isto sem ajuda.

Um programa genuíno por parte das nações mais ricas para fazer prosperar as nações
mais pobres irá, em última análise, aumentar a prosperidade de todos. Uma das melhores
provas de que a realidade tem seus fundamentos na ética é o fato de que quando
homens e governos trabalham devotadamente pelo bem dos outros, conquistam seu
próprio enriquecimento ao longo do processo.

Desde tempos imemoriais os homens têm vivido pelo princípio de que "a auto-preservação
é a primeira lei da vida" mas isto é um falso pressuposto. Diria que a preservação do
outro é a primeira lei da vida. E é a primeira justamente porque não podemos preservar o
ser sem o cuidado de preservar outros seres. O universo está estruturado de tal forma
que as coisas tomam o caminho errado quando os homens não são diligentes no cultivo
da dimensão do "cuidado com o outro". Não posso me realizar sem "você". O ser não
pode ser sem outros seres. Cuidado de si sem cuidado do outro é como um afluente que
não tem saída para o mar, a água parada, estagnada. Falta vida e frescor. Nada seria
mais desastroso e desarmônico para nossos interesses do que permitir que as nações
desenvolvidas entrassem na rua sem saída do egoísmo desordenado. Estamos na
situação afortunada de poder fundir nosso mais profundo sentido ético com nossos
próprios interesses.

Mas o verdadeiro motivo pelo qual devemos usar nossos recursos para erradicar a
pobreza vai além das preocupações materiais em direção à qualidade de nossa mente e
espírito. Profundamente enraizada na fé de nossa tradição religiosa está a convicção de
que os homens foram feitos à imagem de Deus, e que são almas de infinito valor
metafísico. Se aceitarmos isto como uma realidade ética profunda, não podemos ficar em
paz ao vermos homens com fome e vitimados pela doença, tendo meios para ajudá-los.
No final, os ricos não devem ignorar os pobres porque ricos e pobres estão amarrados
uns aos outros. Vieram pelo mesmo portal misterioso do nascimento humano para a
mesma aventura de uma vida mortal.

Todos os homens são interdependentes. Cada nação é herdeira de um vasto tesouro de
idéias e trabalho para o qual contribuíram os vivos e os mortos de todas as nações. Quer
percebamos ou não, cada um de nós vive eternamente "no vermelho". Somos devedores
permanentes de homens e mulheres desconhecidos. Quando levantamos de manhã
caminhamos até o banheiro e pegamos uma esponja que foi colhida por um ilhéu do
Pacífico. Pegamos o sabão que foi inventado por um Europeu. À mesa bebemos café
fornecido por um habitante da América do Sul, ou chá plantado pelos chineses, ou
chocolate cultivado por um africano oriental. Antes de sairmos para o trabalho já
devemos para mais de meio mundo.

Verdadeiramente, toda a vida está inter-relacionada. A agonia do pobre empobrece o
rico; a melhoria do pobre enriquece o rico. Somos inevitavelmente os guardiões de nosso
irmão porque somos o irmão de nosso irmão. O que afeta diretamente a um, afeta a
todos indiretamente.

Um último problema que a humanidade deve resolver para sobreviver na casa mundial que
herdamos é encontrar uma alternativa para a guerra e a destruição dos homens.
Acontecimentos recentes demonstram nitidamente que as nações não estão diminuindo,
mas sim aumentando seus arsenais de armas de destruição em massa. As melhores
cabeças nas nações mais desenvolvidas do mundo dedicam-se à tecnologia militar. A
proliferação de armas atômicas não parou apesar do tratado de limitação dos testes.

Nesta época de conquistas tecnológicas avançadas, de descobertas estonteantes, de
novas oportunidades, grande dignidade e plena liberdade para todos, não há desculpas
para aquela fome insana de poder e recursos que provocou guerras nas gerações
anteriores. Não há necessidade de lutar por alimento ou terras. A ciência nos ofereceu
meios adequados de sobrevivência e transporte que nos permitem desfrutar a plenitude
deste grande planeta. A questão agora é: teremos a ética e a coragem exigidas para
viver juntos, como irmãos, sem medo?

Uma das ambigüidades mais persistentes que enfrentamos é que todos falam da paz
como uma meta, mas entre os detentores do poder a paz não é da conta de ninguém.
Muitos clamam por "Paz! Paz!", porém recusam-se a fazer coisas que conduzem à paz.
Os grandes blocos de poder falam acaloradamente de paz enquanto engordam os já
gordos orçamentos de defesa, aumentam exércitos já enormes e inventam armas ainda
mais devastadoras. Chame aqueles que pedem por paz e ouviremos um surpreendente
coro. Os chefes das nações declaram em altas vozes que a paz é necessária, mas
chegam à mesa de negociação acompanhados de guerreiros com espadas
desembainhadas.

A história está repleta de conquistadores do passado que vieram matando em busca da
paz. Alexandre o Grande, Gengis Kham, Julius César, Carlos Magno e Napoleão tinham em
comum a busca de uma ordem mundial pacífica, um mundo moldado a partir de suas
concepções egocêntricas da existência ideal. Cada um deles buscou um mundo em paz
que personificasse seus sonhos egoicos. Mesmo durante o nosso tempo sobre a terra,
outro megalomaníaco passou pelo cenário mundial. Ele enviou suas legiões por toda a
Europa, semeando desastre e holocausto por onde passava. Há uma triste ironia no fato
de que Hitler conseguiu ascender, seguindo teorias expansionistas francamente
agressivas, e fazer tudo isto em nome da paz.

Hoje quando vejo os líderes das nações novamente falando de paz, mas preparando-se
para a guerra, fico temeroso. Quando vejo nosso país intervindo no que era basicamente
uma guerra civil, mutilando centenas de milhares de crianças Vietnamitas com napalm,
queimando vilas e campos de arroz aleatoriamente, pintando os vales daquele pequeno
país asiático com sangue humano, deixando esqueletos quebrados em valas abertas, e
mandando para casa semi-homens, mutilados física e emocionalmente; quando vejo a má
vontade de nosso governo em criar a atmosfera para um acordo negociado que ponha
fim a esse medonho conflito, negando-se a parar os bombardeios no Norte e
concordando em falar com os Vietcong, temo pelo nosso mundo. Não só pela lembrança
dos pesadelos das guerras do passado, mas também pela consciência da possibilidade
moderna de destruição nuclear, e pelas perspectivas ainda mais calamitosas para o
futuro.

Antes que seja tarde demais, devemos diminuir a distância entre nossas declarações de
paz e nossas ações vis, que precipitam e perpetuam a guerra. É nosso dever levantar os
olhos do pântano de programas militares e investimentos em defesa e ler os avisos nas
placas da história.

Um dia veremos que a paz não é apenas um objetivo distante que buscamos, mas um
meio pelo qual chegaremos a esta meta. Devemos procurar metas de paz através de
meios pacíficos. Quanto tempo ainda precisaremos praticar jogos de guerra mortais antes
de ouvir as súplicas dos incontáveis mortos e mutilados das guerras passadas?

O presidente John. F. Kennedy disse em certa ocasião "A humanidade precisa por um fim
à guerra, ou a guerra porá um fim à humanidade". A sabedoria nascida da experiência
deveria nos dizer que a guerra é obsoleta. Talvez tenha havido um tempo em que a
guerra serviu como um bem negativo, prevenindo o alastramento das forças do mal, mas
o poder destrutivo das armas modernas elimina inclusive a possibilidade de que a guerra
traga qualquer coisa de bom. Se entendemos que a vida vale a pena ser vivida, e que o
homem tem direito à sobrevivência, temos que encontrar uma alternativa para a guerra.

No dia em que mísseis teleguiados cortarem sulcos de morte pela estratosfera, nenhuma
nação poderá declarar-se vencedora na guerra. Uma guerra chamada "limitada" deixará
um legado calamitoso de sofrimento humano, caos político e desilusão espiritual. Uma
guerra mundial deixará apenas cinzas, mudo testemunho de uma raça cuja loucura a
levou inexoravelmente à morte. E se o homem moderno continuar flertando livremente
com a morte, transformará sua habitação terrena num tal inferno que nem a mente de
Dante poderia imaginar.

Portanto, sugiro que a filosofia e a estratégia da não-violência sejam imediatamente
estudadas e seriamente aplicadas em todos os campos do conflito humano, sem excluir
as relações entre os Estados. Afinal, são as nações-estado que fazem a guerra, que
produzem as armas que ameaçam a sobrevivência da humanidade, e que mostram um
caráter suicida e genocida.

Será preciso lidar com hábitos antiqüíssimos, vastas estruturas de poder, problemas
indescritivelmente complicados. No entanto, a menos que abdiquemos de nossa
humanidade e sucumbamos ao medo e impotência na presença das armas que nós
mesmos criamos, é possível e urgente por um fim à guerra e à violência entre nações –
como é possível por um fim à pobreza e à injustiça racial.

A Organização das Nações Unidas é um gesto na direção da não-violência mundial. Ao
menos ali os estados que se opõem um ao outro têm procurado fazê-lo através de
palavras em vez de armas. Mas a verdadeira não-violência é mais que a ausência de
violência. É a aplicação persistente e determinada de um poder de pacificação das
ofensas à comunidade – neste caso à comunidade mundial. Enquanto as Nações Unidas
avançam na gigantesca tarefa em suas mãos, gostaria que examinasse atentamente as
aplicações da ação não-violenta direta.

Não quero minimizar a complexidade dos problemas a serem encarados para conseguir o
desarmamento e a paz. No entanto, estou convencido de que não teremos a vontade,
coragem e visão para lidar com tais questões a não ser que estejamos preparados para
sofrer uma reformulação mental e espiritual, uma mudança de foco que nos permitirá ver
que aquilo que nos parece mais real e poderoso é hoje na verdade irreal e uma sentença
de morte. Precisamos fazer um esforço supremo para gerar a prontidão, realmente uma
urgência em entrar no novo mundo que agora é possível "a cidade que tem uma
fundação, cuja Construção e Construtor são Deus".

Não basta dizer "Não devemos fazer guerra". É preciso amar a paz e fazer sacrifícios por
ela. Precisamos nos concentrar não somente em erradicar a guerra, mas em afirmar a
paz. Chegou-nos da literatura grega uma fascinante história sobre Ulisses e as Sereias:
Era tão doce o seu canto que os marinheiros não resistiam e rumavam para sua ilha.

Muitos navios eram levados até as pedras, os homens se esqueciam de casa, do dever e
da honra e atiravam-se ao mar para abraçar as criaturas que os levavam ao fundo e à
sua morte. Ulisses, decidido a não sucumbir às Sereias, primeiro amarrou-se firmemente
ao mastro do navio e pediu à tripulação que tampasse seus ouvidos com cera. Por fim
Ulisses e sua tripulação aprenderam um método melhor de salvamento: Trouxeram a
bordo um ótimo cantor, Orpheu, cujas melodias eram mais doces que aquelas das
Sereias. Quando Orpheu cantava, quem quereria ouvir as Sereias?

Da mesma forma devemos ver que a paz representa uma música mais doce, uma melodia
cósmica muito superior aos desentendimentos da guerra. De alguma forma devemos
transformar a dinâmica mundial da corrida pelo poder e armas nucleares, que ninguém
pode ganhar, num concurso criativo capaz de dirigir o gênio do homem para a realização
da paz e prosperidade como realidade para todas as nações da terra. Em suma, devemos
mudar da corrida armamentista para a corrida da paz. Se tivermos a vontade e
determinação para montar tal ofensiva de paz, estaremos abrindo as portas, até então
lacradas, da esperança e deixando entrar a luz nos espaços escuros do pessimismo.

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