Sala da mídia
Nota do Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz
- um programa da UNESCO -

Rejeitar a Violência
14/05/2006

Nos últimos dois dias, o Estado de São Paulo viveu momentos extremos de agravamento
da violência. Temos a obrigação ética, sobretudo em um ato pela paz como este
promovido pela Avon, de não nos omitir sobre um dos principais princípios da Cultura de
Paz que é, exatamente, REJEITAR A VIOLÊNCIA.

Não podemos falar apenas em termos teóricos e abstratos, sem levar em conta as
emergências da vida que nos são impostas a cada momento.

Assim, repudiamos os atos de violência que vitimaram dezenas de seres humanos que
tinham, por princípio, a defesa de nossa segurança. Ao mesmo tempo, nos solidarizamos
com as famílias destes policiais militares e civis, guardas municipais, agentes
penitenciários e de outros cidadãos que tiveram suas vidas ceifadas nas últimas 48 horas.
Reiteramos nosso repúdio à opção pela violência por parte dos autores desta ação como
expressão de seus medos e suas inseguranças.

Estes acontecimentos comprometem o pacto social de convivência que estabelecemos
entre nós como Nação e entre as nações, tendo por princípio o pacto internacional de
não-agressão que, por sua vez, é o mínimo elementar de qualquer expressão de vida, no
sentido de não ameaçar outras vidas gratuitamente.

Recorrer à violência significa abrir mão de tudo o que aprendemos e conquistamos durante
um processo milenar de civilização. Significa ignorar avanços como a abolição da
escravatura - cuja celebração se deu exatamente no dia de ontem -, a derrubada de
regimes de governo opressores; a Declaração Universal dos Direitos do Homem, com o
reconhecimento de que todas as raças, culturas e expressões religiosas têm o mesmo
valor e enriquecem a diversidade humana; o direito universal à educação e a usufruir o
patrimônio cultural de nossa espécie; à justiça que garante às mulheres o exercício pleno
de suas capacidades; os direitos dos trabalhadores de reivindicar melhores condições
para a prática de suas profissões; a opção na Constituição Federal de garantir cidadania
plena à infância e à juventude. A maior parte destas conquistas foi possível porque
pessoas se dispuseram a negociar, argumentar, dialogar, buscar consenso, resistir e não
cooperar com a violência.
A violência não é uma expressão de justiça, de felicidade, nem de amizade. Trabalhamos
pelo acolhimento e pela troca, buscamos o convívio, o 'estar junto' para partilhar e
aprender, para criar, desafiar e construir futuros nunca imaginados, mas sempre possíveis.

"A eficácia da não-violência é dar sentido à ação humana."
Jean-Marie Muller

"Não é suficiente que a paz surja como aspiração. Ela tem de ser ancorada e aceita como
um imperativo para a sobrevivência e, portanto, como objetivo soberano do indivíduo e
dos grupos sociais."
"Paz não é um evento; é um estado, um estado de mente e, portanto, refletido no estado
das instituições sociais."
Ravindra Varma

"A paz é a condição que permite aos conflitos serem transformados de maneira criativa e
não-violenta. A paz se torna o contexto que propicia uma forma construtiva de lidar com
o conflito.

"Temos que nos comprometer para aumentar os elementos geradores de paz e pacificar
os elementos geradores de guerras."
Johan Galtung



Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz
um programa da UNESCO


O Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz - um programa da
UNESCO
surgiu em 1999 com a organização de entidades, movimentos e pessoas
para o lançamento mundial do Manifesto 2000 da UNESCO. Esse esforço
possibilitou arrecadar mais de 500 mil assinaturas no Manifesto em listas impressas
no estado de São Paulo, sendo impossível calcular as adesões promovidas via
correio eletrônico - no Brasil, foram mais de 14 milhões, o que nos tornou o
segundo país do mundo em total de signatários.

Diante da repercussão e do empenho dos voluntários em dirigir seus esforços para
a construção da Cultura de Paz, o comitê de divulgação decidiu dar continuidade
às atividades durante toda a década para a Cultura de Paz e Não-violência: 2001-
2010.

Desde então, o Comitê mantém atividades ininterruptas e já soma cerca de 200
membros que se revezam entre as reuniões e fóruns, realizados quinzenalmente
[ver agendas], sob a coordenação da Associação Palas Athena do Brasil.

Nas reuniões, o Comitê utiliza várias ferramentas para instrumentar os
participantes em conceitos como não-violência, diálogo, cooperação, mediação,
tolerância, entre outros. Para os Fóruns são convidadas personalidades das mais
diversas áreas que atuam e contribuem para a construção da Cultura de Paz.

A sede do Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz - um programa
da UNESCO
é a Faculdade Paulista de Saúde Pública da USP [Av. Dr. Arnaldo,
715, São Paulo]. Tanto as reuniões como os Fóruns são sempre terças-feiras, 18h,
e abertos a todos os interessados.
São Paulo, 16 de maio de 2006

Mui estimados parceiros na Cultura de Paz,

Ontem ficamos comovidos ao ver a Catedral da Sé quase lotada no Ato de
Solidariedade aos Familiares das Vítimas da barbárie desarrazoada e criminosa.
Obrigada pela presença expressiva apesar de, devido às circunstâncias, termos
enviado a convocação em cima da hora.

Estamos recebendo dezenas de mensagens com propostas e iniciativas para
manifestar necessidades há muito reivindicadas: programas de re-inserção social
para jovens; capacitação de lideranças comunitárias; engajamento de empresários
para viabilizar o primeiro emprego; criação de cooperativas para geração de renda
nos espaços menos favorecidos da cidade; uso das artes como instrumento de
congregar jovens desempregados; caminhadas silenciosas em apelo à paz e à
convivência saudável; celebrações inter-religiosas... Não faltam idéias nem
entusiasmo, mas talvez seja necessária disposição para a ação. Ação que não
precisa ser espetacular nem objeto de matéria para jornais, rádios ou TV. Porém
ação consistente, persistente, ousada e teimosa.

O Prof. Johan Galtung diz que hoje em dia não há tema mais revolucionário do que
Paz. Ela tem de ser re-significada, implementada e posta em cena como "prima-
dona" de qualquer enredo social. Nas palavras do Dr. Ravindra Varma, deve ser "um
imperativo para a sobrevivência e, portanto, objetivo soberano do indivíduo e dos
grupos sociais".

Estamos analisando as propostas recebidas e responderemos todas as mensagens
tão logo nos seja possível. Apenas para adiantar o expediente e atender às
urgências que as circunstâncias demandam, pinçamos aqui algumas sugestões:

1) Ir às escolas onde estudam crianças cujas mães ou pais foram vitimados neste
final de semana. Propor à diretoria uma cerimônia ou ato de Solidariedade para com
essas crianças.

2) Enviar cartas ou mensagens às corporações de Segurança Pública manifestando
pesar pela perda de policiais, agentes penitenciários, bombeiros e investigadores,
reafirmando o valor inconteste dos Direitos Humanos e da Cultura de Paz.

3) Nos bairros onde estiverem famílias que perderam entes queridos, organizar ou
participar de cerimônias religiosas, e promover visitas de amparo e conforto.

4) Nos hospitais onde houver feridos, levar uma palavra de alento e a presença
cidadã.

5) Não deixar que a indiferença crie uma rede de proteção para nossa perplexidade
e desconcerto. O pior que podemos fazer é negar que estamos assustados,
desorientados, doídos e fragilizados. Talvez o reconhecimento disso tudo, ajude a
nos humanizar, a contextualizar nossas prioridades em fase à Vida, os seres
queridos e as aspirações legítimas de viver numa sociedade mais justa e confiável.

Recebam nossos sentimentos de solidariedade aliados ao compromisso sempre
renovado com os princípios da Cultura de Paz.

Lia Diskin
p/ Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz - um programa da
UNESCO

Irmanados com o povo da Espanha

[nota oficial do Comitê sobre os atentados
perpetrados em Madri em 11/03/2004]

O Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz manifesta seu profundo pesar
ante os acontecimentos ignominiosos inflingidos ao povo espanhol e à comunidade
humana no dia de ontem.

Absolutamente nada justifica uma ação tão brutal perpetrada contra uma
população desarmada e inocente que iniciava mais uma jornada de trabalhos,
estudos ou afazeres, distantes de qualquer conflito ideológico ou partidário.

Absolutamente nada justifica o uso da violência como instrumento de reivindicação
de direitos ou como canal de expressão para uma mensagem, qualquer que seja.

Absolutamente nada justifica o silêncio e a passividade daqueles que, não tendo
sido atingidos diretamente pela brutalidade do terror, são testemunhas de
atentados como os de ontem.

Nossos sentimentos de condolências às famílias das vítimas, e a todo o povo da
Espanha, e nosso compromisso de redobrar esforços para denunciar a
desumanidade de atos semelhantes e, igualmente, nosso empenho em fazer da Paz
uma necessidade que todos os povos procurarão satisfazer.


Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz
- um programa da UNESCO