Declaração do Parlamento das Religiões do Mundo
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d) Ser autenticamente humano, no espírito das grandes religiões e tradições éticas no
mundo de hoje, significa o seguinte:
em vez de desperdiçar o poder econômico e político em batalhas implacáveis pela
dominação, devemos utilizá-lo para o serviço da humanidade: num espírito de compaixão
para com os que sofrem e com cuidado especial pelos pobres, deficientes, idosos,
refugiados e os solitários;
em vez de pensar apenas em poder e políticas de poder ilimitado, e nas lutas competitivas
inevitáveis, deveria prevalecer um respeito mútuo, um equilíbrio razoável de interesses e
um esforço para a mediação e a consideração;
em vez da avidez insaciável por dinheiro, prestígio e consumo, o sentido de moderação e
modéstia deveria voltar a reinar. Pois na avidez os humanos perdem as suas almas,
liberdade interior e, portanto, aquilo que os faz humanos.

1.Para uma cultura de tolerância e uma vida honrada
a)Incontáveis seres humanos, de todas as regiões e religiões, lutam ainda em nossos dias
para levar uma vida de honestidade e honradez. E no entanto existem no nosso mundo
de hoje mentiras e imposturas sem fim, fraudes e hipocrisia, ideologias e demagogia:
políticos e empresários que usam mentiras como caminho para o sucesso;
meios de comunicação de massa que divulgam propaganda ideológica em vez de
reportagens cuidadosas, desinformação no lugar de informação;
cientistas e pesquisadores que se entregam a programas políticos ou ideológicos
moralmente questionáveis ou a grupos de interesses econômicos, e que se esforçam para
justificar pesquisas e experimentos que violam valores éticos fundamentais;
representantes de religiões que rejeitam membros de outras como se tivessem pouco
valor, e que pregam o fanatismo e a intolerância em vez de respeito, entendimento e
tolerância.
b)Contudo, nas grandes religiões antigas e tradições éticas da humanidade, encontramos o
ensinamento: não mentirás! Ou, em termos positivos: diga a verdade! De fato, nenhuma
mulher ou homem, nenhuma instituição, nenhum Estado, igreja ou comunidade religiosa
têm o direito de dizer inverdades a outros seres humanos. Isso é especialmente verdade
para:
Os meios de comunicação de massa, aos quais o direito de liberdade de imprensa e de
reportagem, para o bem da verdade, é assegurado e aos quais, portanto, o posto de
guardião é concedido; não devem ficar acima da moralidade, mas a serviço da dignidade,
dos direitos humanos e dos valores fundamentais; devem estar a serviço da objetividade,
lealdade e preservação da dignidade pessoal; não têm o direito de imiscuir-se na esfera da
privacidade humana, manipular a opinião pública ou distorcer a realidade.
Artistas e cientistas, a quem liberdade artística e acadêmica é assegurada; não estão
dispensados de padrões éticos gerais e devem servir sinceramente à verdade.
Políticos que, se mentirem para seus povos, desperdiçam sua credibilidade e não merecem
ser reeleitos.
Finalmente, representantes das religiões. Quando incitam o preconceito, o ódio e a
inimizade para com aqueles que professam credos diferentes, não merecem adeptos.
c)Portanto, os jovens devem aprender, já nos seus lares e nas escolas, a pensar, falar e
agir conforme a verdade. Todos os seres humanos têm direito à verdade. Têm também
direito à informação necessária e à educação, para que estejam aptos a tomar as
decisões que serão formativas para suas vidas. Sem uma orientação ética fundamental,
dificilmente poderão distinguir o importante do insignificante, na atual torrente diária de
informações. Padrões éticos vão ajudá-los a identificar quando os fatos estiverem
distorcidos, os interesses velados, as tendências manipuladas e as opiniões tornadas
absolutas.
d)Ser autenticamente humano, no espírito das nossas grandes religiões e tradições éticas
no mundo de hoje, significa o seguinte:
em vez de desonestidade, de uma adaptação à vida dissimulada e oportunista, devemos
cultivar o espírito da verdade também nas relações diárias entre os seres humanos;
em vez de espalhar meias-verdades ideológicas ou partidárias, devemos sempre procurar a
verdade com uma sinceridade incorruptível;
em vez de confundir liberdade com arbitrariedade e pluralismo com indiferença, elevemos a
verdade;
em vez de correr atrás do oportunismo, devemos respeitar com lealdade e constância a
verdade uma vez encontrada.

2.Para uma cultura de direitos iguais e parceria entre homens e mulheres
a)Incontáveis seres humanos, de todas as regiões e religiões, lutam para viver suas vidas
num espírito de parceria entre homens e mulheres, de ação responsável nas áreas do
amor, sexualidade e família. Contudo, em todo o mundo existem formas condenáveis de
patriarcalismo, dominação de um sexo sobre o outro, exploração de mulheres, abuso
sexual de crianças e prostituição forçada. As diferenças sociais neste planeta não raro
levam à prostituição como um meio de sobrevivência, particularmente pelas mulheres dos
países menos desenvolvidos.
b)Contudo, nas grandes religiões antigas e nas tradições éticas da humanidade
encontramos o ensinamento: não cometas imoralidades sexuais! Ou, em termos positivos:
respeita e ama o próximo! Concretamente, isso significa: ninguém tem o direito de
degradar outros a meros objetos sexuais, forçá-los ou prendê-los numa dependência
sexual. A exploração sexual deve ser condenada como uma das piores formas de
degradação humana. Onde quer que - inclusive em nome de convicções religiosas - a
dominação de um sexo sobre o outro for pregada, e a exploração sexual tolerada, onde
quer que a prostituição seja promovida, ou que crianças sejam abusadas, a resistência é
imperiosa.
c)Portanto, jovens mulheres e homens deveriam aprender, já em seus lares e nas escolas,
que a sexualidade é fundamentalmente não uma força negativa, destrutiva ou
exploradora, mas uma força criativa. Sua função como formadora da afirmação da vida
comunitária pode ser aplicada, principalmente se for vivida com responsabilidade pela
felicidade própria e pela do parceiro. A relação entre homens e mulheres tem certamente
uma dimensão sexual, mas a realização humana não é idêntica à felicidade sexual. A
sexualidade deve ser a expressão e a reafirmação de uma relação amorosa vivida em
parceria. Inversamente, contudo, algumas tradições religiosas conhecem o ideal de uma
renúncia voluntária do uso completo da sexualidade; essa renúncia pode também ser uma
expressão de identidade e uma realização significativa.
A forma de casamento socialmente institucionalizada que, apesar de suas variações culturais
e religiosas, é caracterizada pelo amor, fidelidade e permanência, busca, e deve garantir,
segurança e apoio mútuo ao marido, mulher e filhos e assegurar seus direitos. É no
casamento que a relação entre a mulher e o homem deve ser caracterizada não por um
comportamento de superioridade ou exploração, mas pelo amor, parceria e confiança. Todas
as regiões e culturas deveriam desenvolver relações econômicas e culturais que tornassem
possível o casamento e a família dignos dos seres humanos, principalmente para as pessoas
idosas. Os pais não deveriam explorar os filhos, nem estes os pais; sua relação deveria, sim,
refletir respeito, apreço e interesse mútuos.
d)Ser autenticamente humano, no espírito das nossas grandes religiões e tradições éticas
no mundo de hoje significa:
em vez de dominação ou degradação patriarcal, que são a expressão da violência e geram
a contra-violência, respeito mútuo, parceria, entendimento e tolerância;
em vez de qualquer forma de lascívia sexual possessiva, ou abuso sexual, respeito mútuo,
tolerância, prontidão para a reconciliação e amor. Apenas o que já foi vivido no plano das
relações pessoais e familiares pode ser praticado ao nível das nações e religiões.

1.Uma transformação da consciência
Toda experiência histórica demonstra o seguinte: nosso planeta não pode ser mudado, a não
ser que num futuro não muito distante uma alteração na consciência dos indivíduos seja
alcançada. Isso já foi verificado em áreas como a guerra e a paz, ou economia e ecologia. E
é precisamente em relação a essa mudança interior, a essa transformação da totalidade da
mente, do "coração", que as religiões têm especial responsabilidade. Estamos conscientes,
contudo, de que um consenso universal sobre diversas questões individuais e éticas
controvertidas (desde ética sexual e bioética, passando pela ética científica e dos meios de
comunicação, até a ética política e econômica) será dificilmente conseguido. Em todo caso,
mesmo para muitas questões ainda controversas, soluções diferenciadas devem ser
buscadas no espírito dos princípios fundamentais aqui conjuntamente desenvolvidos.
Em diversas áreas da vida, já surgiu uma nova consciência das responsabilidades éticas.
Portanto, ficaríamos especialmente contentes se o maior número possível de associações
profissionais nacionais ou internacionais, como as dos físicos, cientistas, homens de
negócios, jornalistas e políticos, pudessem juntar-se para ditar códigos de ética.
Acima de tudo, seria bom se cada religião em particular também formulasse sua ética
específica: aquilo que ela tem a dizer, sustentado pela tradição de sua fé, a respeito, por
exemplo, do sentido da vida e da morte; sobre como suportar os sofrimentos e o perdoar as
culpas; sobre o sacrifício desinteressado e a necessidade da renúncia, compaixão e alegria.
Tudo isso será compatível com uma ética global e pode até mesmo aprofundá-la, torná-la
mais específica e concreta.
Estamos convencidos de que uma nova ordem global só pode ser melhor num mundo
socialmente benéfico e pluralista, de relações de parceria e promoção da paz, de respeito ao
meio ambiente e ecumênico. Portanto, apoiados em nossas convicções religiosas,
comprometemo-nos com uma ética global comum e convidamos todas as mulheres e homens
de boa vontade a fazer desta sua própria declaração.

Nota
1."Ética", e não "éticas", o que implicaria grandes detalhamentos. "Ética", no singular,
expressa a atitude fundamental em relação ao bem e o mal e os princípios para colocá-la
em ação.

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