Declaração do Parlamento das Religiões do Mundo
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1.Uma exigência fundamental: todo ser humano deve ser tratado humanamente
Contudo, porque somos todos homens e mulheres falíveis, com limitações e defeitos, e
porque estamos conscientes da realidade do mal, sentimo-nos compelidos, em nome do
bem-estar da humanidade, a expressar nesta declaração nossas convicções sobre quais
deveriam ser os elementos fundamentais de uma ética global - tanto para indivíduos como
para comunidades e organizações, para Estados como também para as próprias religiões.
Pois acreditamos que nossas religiões e tradições éticas, muitas vezes milenares, contêm
elementos suficientes de uma ética convincente e praticável para todas as mulheres e
homens de boa vontade, religiosos e não religiosos, e que podem, portanto, formar uma
fundação moral comum para uma vida humana conjunta em nossa terra.
Ao mesmo tempo, sabemos que nossas diversas religiões e tradições éticas muitas vezes
oferecem referências muito diferentes a respeito do que é útil e do que é inútil para os
homens e as mulheres, o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é mau. Não
queremos disfarçar ou ignorar as sérias diferenças entre cada uma das religiões. Contudo,
elas não devem nos impedir de proclamar publicamente aquilo que já temos em comum
agora, ao que juntos sentimo-nos comprometidos, cada um referindo-se às suas próprias
bases religiosas ou éticas.
Estamos conscientes de que as religiões não podem solucionar os problemas econômicos,
políticos e sociais deste mundo. Contudo, elas podem certamente oferecer aquilo que
obviamente não pode ser obtido apenas mediante planos econômicos, programas políticos
ou regulamentações legais: podem promover uma mudança na orientação interior, na
mentalidade, no "coração" das pessoas, e levá-las a uma "conversão" de um caminho
falso para uma nova orientação de vida. As religiões são capazes de proporcionar às
pessoas um horizonte de sentido para suas vidas, padrões supremos e um lar espiritual. É
evidente que elas só podem atuar com credibilidade quando eliminam os conflitos que
afloram em si próprias, e desmontam imagens e preconceitos, medos e desconfianças
mutuamente hostis.
Todos sabemos que hoje, como antes, em todo o mundo mulheres e homens são tratados
desumanamente: são roubados em sua liberdade e oportunidades; seus direitos humanos
são pisoteados; sua dignidade humana é desprezada. Mas ter poder (para) não significa
ter direito (de). Ante toda a desumanidade, nossas religiões e convicções éticas exigem
que cada ser humano seja tratado humanamente.
Isso significa que cada homem - sem distinção de sexo, idade, raça, cor da pele, idioma,
religião, opção política, ou origem nacional ou social - possui uma dignidade inalienável e
intocável. E todos, tanto indivíduos como Estados, são obrigados a honrar essa dignidade
e garantir sua efetiva proteção. Os seres humanos devem sempre ser os sujeitos dos
direitos, devem ser os fins, nunca mero meios, nunca objetos de comercialização e
industrialização na economia, política e meios de comunicação, em institutos de pesquisas
e empresas. Também em nossa era nenhum ser humano, nenhuma classe social, nenhum
grupo influente de interesses, nenhum cartel de poderosos e igualmente nenhum Estado
se eleva acima do bem e do mal. Não, todos os homens e mulheres, como seres dotados
de razão e consciência, são obrigados a agir de forma genuinamente humana, e não
desumana, a fazer o bem e não o mal!
Esclarecer o que isso significa concretamente é a intenção da nossa declaração.
Gostaríamos de recordar que normas éticas não devem ser algemas e correntes, mas
ajuda e suporte para os seres humanos, para que eles sempre encontrem e realizem
novamente a direção, os valores, a orientação e o sentido de suas vidas.
Para uma atitude autenticamente humana, lembramos especialmente a Regra de Ouro que
tem sido mantida em muitas religiões e tradições éticas há milhares de anos: aquilo que
você não quer que seja feito a você, não o faça a outros. Ou, afirmativamente: aquilo
que você quer que lhe seja feito, faça-o aos outros. Essa deveria ser a norma irrevogável
e incondicional para todas as áreas da vida, para as famílias e as comunidades, para as
raças, nações e religiões. A autodeterminação e a auto-realização são absolutamente
legítimas - enquanto não estiverem separadas da responsabilidade individual e da
responsabilidade global, da responsabilidade pelos outros seres humanos e pela natureza.
Toda forma de egoísmo, contudo, toda auto-referência, seja ela individual ou coletiva,
seja na forma de pensamento de classe, racismo, nacionalismo ou sexismo, deve ser
rejeitada. Por isso impede os humanos de ser autenticamente humanos.
A regra de ouro implica padrões muito concretos aos quais nós, humanos, deveríamos e
gostaríamos de nos apegar firmemente, pois concernem ao bem-estar tanto dos
indivíduos como da humanidade. Existem, acima de tudo, quatro antigas orientações para
o comportamento humano, que são encontradas na maioria das religiões do mundo.
Deveriam ser evocadas junto com uma visão para uma ordem mundial melhor.

2.Quatro diretivas irrevogáveis
1.Para uma cultura de não violência e respeito à vida
a)Incontáveis mulheres e homens, de todas as regiões e religiões, lutam para levar uma
vida que não seja determinada pelo egoísmo, mas sim pelo compromisso para com os
outros seres humanos e para com o mundo ao seu redor. Contudo, no mundo de hoje
ainda existe ódio, rancor, inveja e violência sem fim, não apenas entre indivíduos mas
também entre grupos sociais e étnicos, classes, raças, nações e religiões. A
tendência ao uso da violência e do crime organizado, equipados com novas
possibilidades técnicas, alcançou proporções globais. Muitos lugares ainda são
governados pelo terror, e grandes, bem como pequenos ditadores, oprimem seu
próprio povo. Até mesmo em algumas democracias prisioneiros são torturados, homens
e mulheres são mutilados, reféns são mortos.
b)Entretanto, nas grandes religiões antigas e nas tradições éticas da humanidade,
encontramos o ensinamento: não mataras! Ou, em termos positivos: Tenha respeito
pela vida! Concretamente, isso significa que ninguém tem o direito de torturar, ferir e,
certamente, de matar nenhum outro ser humano. E nenhum povo, nenhuma raça,
nenhuma religião, têm o direito de odiar, discriminar, e certamente de exilar ou liquidar
uma minoria "estrangeira" que seja diferente nos costumes e nas crenças.
c)Portanto, os jovens deveriam aprender, já em seus lares e na escola, que a violência
não deve ser um meio de resolver as diferenças com os outros. Só então poderá ser
criada uma cultura de não-violência. Todas as pessoas têm direito à vida, à
integridade corporal e ao desenvolvimento da personalidade, enquanto não ofenderem
os direitos dos outros. É claro que onde quer que existam humanos haverá conflitos.
Estes, entretanto, devem ser resolvidos sem violência. Isso é verdade, tanto para
Estados como para indivíduos, pois os detentores de poder político devem sempre se
comprometer primeiramente com as soluções não violentas, no contexto de uma
ordem internacional pacífica. E esta também tem necessidade de proteção e defesa
contra os perpetuadores da violência. O armamentismo é um caminho equivocado, o
desarmamento é a ordem do dia. Não haverá sobrevivência para a humanidade sem a
paz.
A pessoas humana é infinitamente preciosa e deve ser incondicionalmente protegida. Mas,
igualmente, a vida dos animais e das plantas que coabitam este planeta conosco
merecem proteção, preservação e cuidado. Como seres humanos, temos também
responsabilidade pelo ar, água e solo, com vistas às gerações futuras.
A dominação da humanidade sobre a natureza e o cosmos não deve ser propagada, mas,
em seu lugar, a convivência harmônica com a natureza e o cosmos deve ser cultivada.
Falamos de um respeito à vida, a toda forma de vida.
d)Sermos autenticamente humanos no espírito das nossas grandes religiões e tradições
éticas significa que, tanto na vida pública como na vida privada, não devemos ser
impiedosos e brutais, mas sim preocupados com os outros e dispostos a ajudar. Todos
os povos, raças e religiões devem demonstrar tolerância, respeito, e mesmo alto
apreço pelos demais. As minorias - sejam elas raciais, étnicas ou religiosas - precisam
de nossa proteção e apoio.

2.Para uma cultura de solidariedade e de ordem econômica justa
a)Incontáveis seres humanos, em todas as regiões e religiões, lutam ainda hoje para
viver uma vida em solidariedade com os demais, de trabalho e autêntico
preenchimento de suas vocações. Apesar disso, no mundo de hoje existem fome sem
fim, deficiências e necessidades, pelas quais não apenas indivíduos, porém mais ainda
estruturas injustas, são responsáveis. Milhões de homens e mulheres estão sem
trabalho, milhões são explorados, expulsos para a margem da sociedade, com suas
possibilidades futuras destruídas por um trabalho mal pago. Em muitos lugares, o
espaço entre os pobres e os ricos, entre os poderosos e os desprotegidos, é
monstruoso. Num mundo no qual o socialismo de estado, bem como o capitalismo
lucrativo, esvaziaram muitos valores éticos e espirituais por meio de uma visão
meramente político-econômica das coisas, a avidez por lucros ilimitados, a cobiça por
pilhagens sem fim poderiam disseminar-se, bem como uma mentalidade materialista, de
reivindicações que constantemente exigem mais dos governos, sem obrigar cada um a
contribuir mais. O câncer social da corrupção cresceu tanto nos países em
desenvolvimento quanto nos desenvolvidos.
b)Contudo, nas grandes religiões antigas e nas tradições éticas da humanidade,
encontramos o ensinamento: não roubarás! Ou, em termos positivos: sê honesto! E,
de fato, nenhum homem tem o direito de roubar ou despojar - de nenhuma maneira -
outros seres humanos ou o bem público. Reciprocamente, nenhum ser humano tem o
direito de usar seus bens sem se importar com as necessidades da sociedade. Onde
reina a pobreza extrema ocorrerão roubos, muitas vezes por necessidade de
sobrevivência, se o completo abandono e o desespero esmagador ainda estiverem
reinando. E onde o poder e a riqueza são acumulados sem piedade, sentimentos de
inveja, ressentimento e, sim, ódio mortal, inevitavelmente brotarão nos despossuídos.
Isso leva todos facilmente a um círculo diabólico de violência e contra-violência. Não
existirá uma paz global sem uma ordem global justa.
c)Portanto, os jovens deveriam aprender, já nos seus lares e nas escolas, que a
propriedade, por pequena que seja, carrega consigo uma responsabilidade, e que seu
uso deveria ao mesmo tempo servir ao bem comum. Só então uma ordem econômica
justa poderá ser construída. Entretanto, se a situação crítica dos bilhões de seres
humanos mais pobres, particularmente mulheres e crianças, deve ser melhorada, as
estruturas da economia mundial precisam ser fundamentalmente alteradas. Boas ações
individuais e projetos assistenciais, apesar de indispensáveis, não são suficientes. A
participação de todos os países e a autoridade de organizações internacionais são
necessárias para se chegar a um acordo justo.
Certamente conflitos de interesses são inevitáveis, e mesmo as nações em
desenvolvimento têm necessidade de uma busca nacional de consciência. Mas uma
solução para a crise da dívida e a pobreza do segundo e do terceiro mundos, que possa
ser apoiada por todos os interessados, deve ser buscada. Em todo caso, nos países
desenvolvidos, deve-se fazer uma distinção entre o consumismo justificável e o
injustificável, entre o uso socialmente benéfico e o não-benéfico da propriedade, entre o
uso razoável e o uso irracional dos recursos naturais, entre a economia de mercado
orientada apenas pelo lucro ou social e ecologicamente orientada. É universalmente
válido: onde quer que os que governam ameacem sufocar os governados, as instituições
ameacem as pessoas, o poder oprima os direitos; a resistência - sempre que possível,
não-violenta - deve ocorrer.
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