45º Fórum
Reflexões e vivências a partir do compromisso
com populações excluídas

Pe. Júlio Lancellotti
8/nov/2005

[Padre Júlio inicia suas reflexões comentando que a Justiça havia rejeitado na segunda-feira,
dia 07/11, a denúncia (acusação formal) apresentada pelo Ministério Público contra cinco
policiais militares e um segurança clandestino por suposta participação no massacre de
moradores de rua da região central de São Paulo, ocorrido em agosto de 2004. A Promotoria
pedia também a prisão preventiva do grupo. Pe. Júlio acabava de chegar de um protesto
contra a rejeição da denúncia, que reuniu entidades de direitos humanos e da Igreja Católica
em frente ao prédio do Tribunal de Justiça. O grupo queimou o texto da decisão e colocou uma
coroa de flores na entrada do prédio, e sofreu repressão policial.]

[início da gravação]... há denúncias com mais de cinqüenta páginas, bastante consistentes,
com depoimentos de testemunhas presenciais – uma testemunha, inclusive, foi
assassinada. Acho que o promotor não leu todo o inquérito, e deve ter parado a leitura
ainda na manifestação do promotor anterior, porque ele diz que se trata de uma
acusação com singelas suposições.

Estivemos agora com todo o Povo da Rua e entidades na porta do Tribunal de Justiça, e
não esperávamos que uma manifestação tão simples fosse dar na confusão que deu.
Primeiro, porque a Polícia Militar diz que a área do Tribunal é do Palácio da Justiça. É área
de segurança e o carro de som não poderia se aproximar. Não permitiu que nosso carro
de som se aproximasse. Deixou que fôssemos até às proximidades do Tribunal porque a
imprensa nos acompanhava. Por isso, nos deixaram chegar perto. Estava conosco o Dr.
Hélio Bicudo, que é uma pessoa de reconhecimento internacional na luta pelos Direitos
Humanos, o presidente da Comissão Municipal dos Direitos Humanos, e vários
representantes de grupos e entidades e, no final, quando quisemos colocar uma coroa de
flores em homenagem ao Povo da Rua, na porta do Tribunal, toda a Polícia Militar cercou,
destroçou nossa coroa de flores, arrebentou com tudo, não deixou ninguém se aproximar
da escada, e alguns de nós conseguiram passar por baixo dos braços dos policiais
militares, as flores foram jogadas por cima e pusemos na porta do Tribunal, numa atitude
não-violenta e de resistência. Porque a impunidade em crimes envolvendo a população de
rua vai gerando novos crimes, como os acontecidos neste último final de semana, nos
baixos do viaduto Arapuã, no Jabaquara, quando uma pessoa de rua foi assassinada e
outras ficaram feridas.

O que nós temos procurado é trabalhar políticas públicas. Trabalhar o conceito de
cidadania, de defesa de direitos e de deveres, e políticas públicas para essa população
que está – pela lógica do sistema – excluída. Portanto, é uma estratégia de minar este
sistema, de certa forma, porque sua lógica é que essas pessoas fiquem sem nenhuma
possibilidade de trabalho, de saúde, de moradia, de condições de vida.

Essa é uma caminhada difícil, uma vez que não pode ser feita sem a participação dessas
pessoas. Nós não podemos fazer "para" eles, temos que fazer "com" eles, sabendo que
cada grupo vai ter a sua forma de participação e a sua forma de atuação. É uma
caminhada difícil que exige uma metodologia constantemente avaliada, que exige
participação constante dos grupos envolvidos. Não se pode trabalhar "para" os catadores
de material reciclável, tem que se trabalhar "com" os catadores; não se pode trabalhar
"para" a população de rua, tem que se trabalhar "com" a população de rua.

Hoje, São Paulo é uma das poucas cidades do Brasil com uma lei municipal que estabelece
uma política pública para o morador de rua, a de número 12.316, que teve uma longa e
agitada história para ser aprovada. Toda essa caminhada vem nos mostrando a firmeza
permanente, a não-violência ativa, a defesa da vida, da dignidade da vida, da cidadania
que precisa ser devolvida, resgatada, e que as pessoas novamente se percebam como
cidadãos, como seres humanos com dignidade. É importante que a população de rua
perceba isso, se dê conta disso e se veja assim, e não mais como eterna 'coitadinha'.

A população que hoje está nas ruas da cidade vai resistindo de mil maneiras diferentes,
buscando encontrar possibilidades. Uma caminhada como essa exige, de nós, lucidez –
não quer dizer que tenhamos sempre -, mas requer de nós análise para trabalharmos nas
contradições, com os conflitos de interesses, porque muitas vezes pensamos que uma
caminhada pacífica é a negação constante do conflito, e não é! Não se pode negar o
conflito; ele está ali, presente! Não se pode acirrar o conflito ou procurar resolvê-lo de
maneira violenta. Como mediar o conflito de maneira pacífica, salvaguardados os
princípios éticos da dignidade, da vida dessas pessoas?

Um exemplo que tem dado muita polêmica atualmente é a postura da Prefeitura de São
Paulo que quer limpar o centro da cidade, numa política que nós chamamos de
"higienista", ou seja, proibir a presença dos catadores, afastando-os.

Hoje, visitei um prédio no Glicério, ao lado Igreja da Paz, que é um albergue mantido pelos
Franciscanos, para a população de rua, nos baixos do viaduto do Glicério. Porém, é um
albergue que está contra a lei, pois está com 400 pessoas. É impossível acolher,
personalizar e dignificar o atendimento para 400 pessoas. Não há como ouvir, olhar,
respeitar essa pessoa, e até ter conflito com ela, porque é inevitável. Essas pessoas
trazem muitos conflitos, assim como aqueles que trabalham também têm todos os seus
desgastes. Portanto, esse albergue tem que sair de lá. Os Franciscanos estão querendo
fazer um outro caminho, uma outra metodologia e pensaram em alugar um prédio grande
que tem ao lado da Igreja da Paz. Hoje, os padres Carlistas disseram-me que o prefeito
Serra vetou a utilização desse prédio, porque ele não quer a população de rua no centro
da cidade. A população de rua tem que ir para a periferia, para as bordas da cidade. O
argumento é que eles não podem ficar no centro da cidade porque, com a revalorização,
a presença da população em situação de rua é incompatível.

E nós temos que pensar e discutir a questão com urbanistas, arquitetos e estudiosos da
cidade. É possível revitalizar a cidade sem excluir os mais pobres da área central? É
possível revitalizar a cidade – porque nenhum de nós é contra, a cidade tem que ser
revitalizada, valorizada, aberta ao turismo, à cultura -, mas é possível fazer tudo isso
sem excluir e sancionar ainda mais essa população, que fica sem direito a morar no
centro? Eles moram no centro porque, segundo a compreensão de analistas, há serviço
no centro; então, dizem: "Vamos pôr serviço na Cidade Tiradentes, porque eles irão para
lá". É uma análise ingênua, que não leva em conta os significados. É como se a população
de rua não fosse uma população que carrega sentido dentro de si, significados. Eles
também fazem uma leitura própria da cidade.

Há poucos dias, estávamos com duas estagiárias da Itália. Uma delas é fotógrafa, e pedi
que fizesse um trabalho de fotografia com os moradores de rua. Ela me perguntou: "Quer
que eu tire foto deles?" Disse-lhe: "não, quero que eles tenham uma máquina na mão e
fotografem a cidade, porque sempre eles são fotografados catando latinha, dormindo ou
sujando a cidade. Mas é interessante que eles passem de objeto da fotografia para
sujeito da foto". O sujeito da foto é o que tem a câmera fotográfica na mão, pode
escolher e fotografar. E eles fizeram fotos muito interessantes do que mais gostam da
cidade e do que menos gostam. As fotos que fizeram estão acompanhadas de textos e
serão publicadas brevemente em livro, na Itália.

O interessante desta experiência foi que a fotógrafa facilitou o acesso deles aos
equipamentos, foram treinados para fazer a fotografia. Saíram pela cidade com ela. Eles
fizeram as fotos a cores, e a fotógrafa profissional os registrou em preto e banco
enquanto eles fotografavam, quase como num exercício de contemplação da sua ação. É
uma coisa muito bonita. Vai ficar um livro muito bonito!

Isso, penso, é cultura de paz. É cultura de paz se colocar no lugar do outro para ver
como ele enxerga a mesma realidade que você. Ele enxerga de um outro jeito! Sempre o
Povo da Rua é que é fotografado. É interessante quando eles fotografam e dizem porque
escolheram aquele lugar. E chama muito à atenção que em algumas fotos não há pessoas
– fotografam mais os locais – e quais as análises que eles fazem. As fotos deles estão em
exposição na Comunidade São Martinho de Lima do Povo da Rua, nos baixos do viaduto
Guadalajara. Tanto as deles quanto as da fotógrafa estão expostas.

Estamos construindo a Cultura de Paz nessas formas, nessas ações e metodologia. Uma
questão que está gerando muita polêmica atualmente em nossa discussão com o poder
público, e que interessante refletir a partir dos valores que acreditamos, é a proposta de
não dar esmola: "Não dê esmola, dê futuro". Atrás dela vem embutida a idéia de que se
todo mundo parar de dar esmola, não vai ter mais pobre na rua, crianças de rua,
malabaristas, os que fazem malabares na rua. É como dizer que estão lá porque os
motoristas dão dinheiro! Se pararem de dar dinheiro, eles sairão de lá. É uma análise
muito linear, e ainda dizem para os motoristas que eles devem depositar o dinheiro da
esmola no Fundo Municipal.

É bom que se deposite no fundo municipal da criança e do adolescente. Todos nós que
pagamos Imposto de Renda, ao declarar, podemos registrar que queremos que 1% do
nosso imposto devido vá para o Fundo Municipal, e isso pode ser feito tanto pela pessoa
física quanto jurídica.

O que eu disse ao poder público é o seguinte: a esmola é uma decisão de foro íntimo e
não cabe ao Estado tutelar a consciência do cidadão. O Estado não pode dizer para
você: "dê esmola"! E, depois, dizer: "agora não; não dê mais esmola"! Não é o Estado que
deve fazer isso, pois, numa sociedade pluralista, um budista daria esmola? Ou não! Qual a
visão dos muçulmanos em relação à esmola? A reação dos cristãos? Então, é uma análise
extremamente pragmática e ocidental "não dê esmola, dê futuro". É uma análise que nega
completamente o pluralismo de visões e as diferentes formas de você encarar esse
fenômeno. E disse ao secretário o seguinte: "quem tem que parar de dar esmola é o
poder público, porque é este que dá esmola". Ele me disse que não, que a Prefeitura
gasta por mês R$ 10 milhões na área social. Uma cidade que tem R$ 11 bilhões de
orçamento gasta R$ 10 milhões por mês. Esses 10 milhões equivalem ao custo da calçada
nova da avenida Paulista. Então, é esmola ou não é?

Fiz até um cálculo e lhe disse que, se São Paulo tem 10 milhões de habitantes, R$ 10
milhões por mês dividido por cada habitante dá R$ 1,00. Como nem todos necessitam de
assistência social, tira-se a metade e ficam só cinco milhões, cabendo a cada habitante
R$ 2,00. Como cinco milhões não são atendidos na área social, você corta pela metade e
chega a 2,5 milhões, que dá R$ 4,00 por pessoa. Mas é muito 2,5 milhões, então corta
pela metade e chega-se a R$ 8,00 por pessoa. É uma esmola ou não é? Por isso, temos
tantas crianças nas ruas.

Temos que enfrentar esses problemas de maneira clara. Acredito que a cultura de paz se
constrói na clareza das análises, para que se perceba qual é o tamanho do problema e se
possa encontrar soluções complexas para problemas complexos. Problemas complexos
têm soluções complexas, como a população de rua. Não se pode pensar que o problema
da população de rua vai se resolver só com albergue! Hoje, São Paulo tem cerca de 11
mil pessoas vivendo nas ruas da cidade, de acordo com uma metodologia desenvolvida
pela FIPE. Não sei se vocês sabem, mas o IBGE não faz o recenseamento do Povo da
Rua. Esta população não é recenseada pelo IBGE, uma vez que a metodologia adotada
efetua o censo apenas de quem tem domicílio. Quem não tem domicílio não é cidadão.
Como, então, ter política pública se você não sabe o tamanho do fenômeno? Como ter
orçamento desconhecendo a dimensão da situação a enfrentar! Como planejar ações
sociais para a população em situação de rua, se não se sabe quantos são!

Acredito, portanto, que todas essas questões nos desafiam. São questões que exigem de
nós princípios, metodologia e, principalmente, uma postura clara: como nos colocamos
frente a esses problemas. Penso que a vivência que se tem com essa população exige
também uma ética comunitária. E estamos muito pobres de uma visão comunitária! Diante
da crise da modernidade, nossa visão é somente subjetivista, individualista e, muitas
vezes, até a nossa busca da paz está muito no subjetivismo e no individualismo. Claro
que a auto-ajuda é importante, mas até isso está se tornando o meu 'ceuzinho'
particular, independente dos conflitos, dificuldades e desafios que vivemos em nossa
sociedade. O que está ocorrendo na França, neste momento, é um bom exemplo,
acredito, de uma sociedade egoísta, fechada, elitista, sectária, intolerante, que nega a
visão social e comunitária. Não que eles sejam tudo isso e nós sejamos uns anjos. Há
pouco, duas adolescentes que me acompanham disseram: "imagine se isso acontecer no
Brasil?" Se os jovens começarem a fazer este tipo de protesto vai ser um caos. Não
podemos nos esquecer de 1968, do que aconteceu na França e, em seguida, no resto do
mundo.

Não sabemos como trabalhar a tolerância. Conceitos como este desapareceram de nosso
vocabulário. Se olharmos os jornais, por exemplo, a Folha de S.Paulo, o OESP, o Diário de
São Paulo
, e fizermos uma análise de todas as palavras que estão escritas, não iremos
encontrar termos como compaixão, tolerância, compreensão, perdão. Estas palavras não
fazem parte de nosso vocabulário. E quando algum conceito não está presente na
linguagem é porque não está presente na vida daquele momento. Praticamente,
enterramos, destruímos estes conceitos. Estamos nos tornando incapazes de vivenciá-
los.

Veja o que acontece nas escolas da rede pública, apesar do Secretário da Educação ser
ético e poético. Quem vai às escolas da rede estadual vê o descalabro de nossas
escolas. Mesmo nas de ensino fundamental, os professores (as) não conseguem controlar
a violência e a agressividade. Como é possível ter 40 ou 50 alunos em uma classe de 1ª
Série: é impossível, não se pode ter esta quantidade de alunos!

É neste sentido que a cultura de paz também é uma cultura política. E, se queremos
construir a cultura de paz, é necessário colocarmos de forma clara que classes
constituídas de 40 alunos no nível fundamental é um atentado à paz. É jogar as pessoas
na impossibilidade da convivência, na impossibilidade da aprendizagem, do relacionamento
interpessoal, de um processo educativo. Nega-se o direito à educação estabelecido na
Constituição e no Estatuto da Criança e do Adolescente. No entanto, todo mundo assiste
a isso calado. A omissão não constrói a paz. Muitas vezes, para não entrarmos em
conflitos, nos omitimos e, assim, ficamos em paz com todo mundo, de bem e fica tudo
"numa boa"! Isto não é cultura de paz!

A Cultura de paz vai ser construída com métodos pacíficos, mas nos levará muitas vezes
a desafios e a conflitos de interesses. Porque há os que têm interesse em ter uma paz
subjetiva, uma paz de palácio, como o Palácio da Justiça, porém, não têm um
compromisso de construir. Acredito que temos que examinar se nosso processo
pedagógico é construtor de uma cultura de paz, se nossas escolas estão aptas à
resolução de conflitos sem violência, por exemplo. Precisamos que isso seja uma política
pública, que nossos professores sejam trabalhados para isso, e não jogados numa arena.

Como está, eles passam a ser irônicos, agressivos e desrespeitadores, muitas vezes, dos
alunos, e por quê? Porque estão sendo desrespeitados, tratados com ironia, com dureza,
e eles acabam reproduzindo. Para reproduzir a violência, somos todos muito eficazes,
muito eficientes, porque é o modelo que aprendemos, está introjetado em nós.
Infelizmente, não introjetamos a cultura de paz.

Sempre lembro de uma ocasião na Febem – onde já houve tantas rebeliões e, muitas
vezes, tive que entrar, em momentos difíceis. As pessoas lá ficavam muito irritadas
quando ia falar com os jovens depois da rebelião, sentados ao chão, apenas de cuecas,
para usar a linguagem deles "descascados". Sempre dizia a eles: "muito obrigado por
vocês me ouvirem de maneira muito respeitosa, e estou agradecido por isso!". Ao tratar
as pessoas assim, você coloca limite. E uma educação com limite é humana, enquanto
uma educação sem limite é desumana. É preciso estabelecer limites. O limite não é a
intolerância, mas o limite humaniza a relação, a introjeção de valores.

Há poucos dias, trabalhando com jovens que passaram ou não pela Febem, em medida
sócio-educativa de liberdade assistida, um jovem me marcou muito pela conversa que
teve com uma de nossas educadoras:

Jovem: Você tem filho da minha idade?
Educadora: Tenho, sim, um filho de sua idade.
Jovem: E você trata seu filho como está me tratando?
Educadora: Trato.
Jovem: Ah!
Educadora: E por que quer saber?
Jovem: Porque, nunca, ninguém me tratou assim. Nunca, ninguém, me ouviu ou
conversou comigo do seu jeito. Então, se você trata seu filho assim, que bom pra ele,
né!

Como se ele quisesse dizer: "eu também queria que minha vida tivesse sido assim". Ele
estava se sentindo humano, por ser tratado com dignidade. Isto é cultura de paz. A
educadora que trata dessa forma o jovem em liberdade assistida está construindo a
cultura de paz.

Um outro exemplo é quando nossos advogados acompanham os jovens nas audiências, no
fórum, e defendem a verdade e não a mentira. Há alguns advogados que dizem ao jovem
para falar que a arma que estavam usando no momento do assalto era de brinquedo, pois
poderiam sair-se melhor com o juiz. Não, não tem que falar para o jovem mentir! Se ele
estava com uma arma de verdade, ele vai ter que dizer que era uma arma de verdade, e
não dizer que era de mentira! E por quê? Porque a vítima não sabe que era de mentira, o
terror que foi causado na outra pessoa, seja com uma arma de verdade ou de brinquedo,
é o mesmo. O efeito é o mesmo. Não pode introjetar essa mentira, porque se você sabe
que a arma é de brinquedo, você ter um outro tipo de comportamento. Quando você é
assaltado, não vai olhar se a arma é de brinquedo ou não.

Portanto, acredito que estamos pobres deste tipo de reflexão. Precisamos aumentar essa
reflexão, e aumentá-la em uma outra esfera que seja mais aberta, mais eficaz, eficiente
politicamente. Porque acredito que vocês fazem uma grande movimentação humana, de
muita gente, e que têm ramificações que atingem muito mais pessoas.

Temos que cobrar da Prefeitura como ela está vivenciando a cultura de paz também com
a população de rua, com os catadores, com os meninos de rua. Como as Secretarias
Municipal e Estadual da Educação estão fazendo isso?

Uma pessoa que tem me chamado atenção nesses dias – vou dizer porque ficam achando
que sou muito crítico e azedo com as autoridades -, é a atual Secretária Municipal da
Saúde, a Dra. Cristina Cury, uma pessoa excepcional. Convidem-na um dia para falar
sobre a humanização dos hospitais. Há detalhes belíssimos! No domingo passado,
estávamos juntos no Pronto Socorro do Jabaquara, no Hospital Sabóia, justamente vendo
os feridos do ataque que houve àquelas pessoas, embaixo do viaduto. Estávamos
andando pelo hospital quando passou uma enfermeira puxando uma cadeira de rodas com
uma jovem senhora que tinha acabado de dar à luz. A enfermeira estava empurrando a
cadeira de rodas de forma que a paciente não podia ver para onde estava indo, ou seja,
a paciente estava de costas. A Secretária viu e falou à enfermeira: "por favor, ela
acabou de ter um parto, está mais sensível, inclusive na questão espacial. Então, você
deve levá-la com a cadeira virada para frente. Ela tem que ver para onde ela está indo, e
não ficar olhando para trás". A Dra. Cristina Cury virou-se então para mim e disse: isso é
humanização da saúde.

Claro que a enfermeira não gostou e disse à ela: "dê uma cadeira de rodas nova que eu
levo". Ora, quem não leva com uma cadeira de rodas que estava usando, não leva nem
com aquela nem com a nova. Porque quem tem atitude dentro de si, vai fazer de um jeito
humano, com cadeira nova ou velha. Pois, senão, a gente fica na desculpa da estrutura
para desumanizar a vida. E você pode humanizar a vida sempre. Isso tem que estar
dentro de cada um como um valor. Isso é uma vivência que, acredito, a gente tem que ir
construindo, celebrando, vivenciando cada dia da vida.

Quero abrir às pessoas que querem falar algo, concordar, discordar, completar, porque
daqui a pouco tenho que deixá-los.

Interlocutor:  Queria parabenizá-lo por sua trajetória. E como disse há pouco que não
queria ser tão crítico, aparentemente, ao ouvi-lo falar, o senhor é
bastante crítico. Penso também que o senhor não traz a inversão de
valores, como o assistencialismo. Eu queria saber o quanto as religiões,
inclusive a de sua, está participando ativamente, sendo realmente efetiva,
deixando de falar que o governo é culpado. As políticas públicas estão
sendo modificadas e a assistência à população carente está sendo grande.

Pe. Júlio:A religião não deve ser efetiva. Não se mede a religião pela eficácia. A
religião se mede pela forma como a pessoa a vive; não se deve medir isso.
Você não mede a poesia pela eficácia. Qual a eficácia da poesia? Qual a
eficácia da canção, da dança? Qual a eficácia de orar? Acredito que as
religiões não têm que ser eficazes. Elas têm que humanizar a vida. É aquilo
que Sua Santidade, o Dalai Lama, diz: 'Você tem uma religião para ser
humano'. E a espiritualidade é aquilo que o torna mais humano e que o
modifica.
Nesse breve tempo, é claro, faço uma análise crítica da situação atual da
política pública. Por quê? Porque a política pública é a forma mais eficaz de
amor. E temos que ser exigentes no amor. A exigência no amor faz com que
a política pública torne-se mais eficaz, eficiente. Porque é um benefício que
todas as pessoas vão receber, independente de sua condição. Então, a
População de Rua tem de ter uma política pública eficaz, e nós temos de
cobrar. Eu sei diferenciar alguma coisa de outra, e é claro, as nossas
análises nunca são todas perfeitas, mas consigo identificar na secretária
Cristina Cury uma secretária humana! Dia desses, ela disse que não estava
preocupada com política e, sim, em tornar o trabalho bom para o povo. E
importante vocês ouvirem esta pessoa.
Eu vi que chegou o pessoal da revista Ocas. Que bom que estão aqui,
sejam bem-vindos.
Estamos colocando, através desta secretária, os Agentes Comunitários de
Saúde nas ruas. Temos 11, e teremos 35 pessoas que viviam em situação
de rua e estão sendo selecionadas, contratadas e recebendo formação
como Agentes de Saúde na rua. Eles estão conseguindo a adesão a
tratamentos de tuberculose na rua. Estão conseguindo levar os
profissionais das unidades básicas de saúde para o atendimento na rua.
Estão conseguindo o acesso democrático, humano e verdadeiro da
população de rua à saúde. Começamos com 11, que é muito pouco, vamos
ter agora 35, e precisamos mais. Convidem, um dia, os Agentes
Comunitários de Saúde da rua para contar para vocês o trabalho que têm
realizado, a transformação da própria vida. Isso é cultura de paz. Isso é
construir a paz, ao fazer com que essas pessoas descubram, vivam e
experienciem que são capazes de ser agentes de transformação.
As religiões devem ser vividas segundo a fé de cada pessoa. Muitas vezes,
nossas análises religiosas são extremamente ocidentais. Falamos de religião
circunscrevendo-a a uma visão ocidental. Precisamos falar de religião
levando em conta que elas, na maioria, nasceram no Oriente, e nós as
analisamos pelo viés racionalista, pragmático, ocidental.

Interlocutor:  Posso fazer uma colocação! Na Índia há mais de 1 bilhão de pessoas, 800
milhões vivem na miséria, e é uma população pacífica. Quer dizer, é o
enfoque mental, cultural que se dá na população...

Pe. Júlio:Nunca estudei isso profundamente, embora na Índia exista também muita
violência entre grupos religiosos, violência no Paquistão, Caxemira, e
também por algum motivo mataram um de nossos maiores pacifistas, o
Mahatma Gandhi. Acredito que temos de entender um pouco a cultura do
outro. Não tenho conhecimento tão grande da cultura, das religiões, da
forma de ser do povo da Índia para poder analisar tudo exatamente como
acontece.
Teriam alguma pergunta mais, pois eu já estou com o tempo limitado.
Vamos juntar algumas perguntas para que eu possa responder.

Interlocutor:   Estamos observando na cidade o movimento da Toca de Assis. O que
significa isso nos dias de hoje, por que apareceu e como você analisa este
fenômeno?

Interlocutor:  Gostaria que o senhor lembrasse, além das escolas públicas, das
particulares, pois a violência está em todas as salas de aulas. Outra coisa,
quando aquele senhor perguntou sobre as igrejas, acho que ele não queria
se referir à eficácia ou não da religião de cada um, mas quando a gente
faz uma crítica mostrar também um caminho. Então, a igreja, assim
como a escola, tem condições de dar incentivos e caminhos para que a
pessoa possa agir, e não só se revoltar. Acho que foi neste enfoque que
ele perguntou.

Pe. Júlio:A indignação ética tem que estar presente. Acho que, muitas vezes, temos
idéia de paz como a negação do conflito. Eu parto do princípio que a paz
não é a negação do conflito, e que você deve ter métodos pacíficos.
Porém, você não deve ter medo de enfrentar os conflitos e as diferenças,
porque só enfrentando com realidade e sabendo que penso de tal forma e
você de outra, é que vamos ter caminhos.
Vou ouvir só mais uma pergunta para poder responder a que já foi feita,
pois tenho realmente que sair.

Interlocutor:  No caso de pessoas interessadas em trabalho voluntário com a
população de rua, qual o local a procurar, para não escolher algo de forma
aleatória ou sem fundamento real?

Pe. Júlio:Hoje existem trabalhos com a população de rua realizados pela Igreja
Metodista, pela AEB (Associação Evangélica Beneficente), Católica, grupos
Espíritas. Teria que ver a afinidade de cada pessoa, pois há diferentes
abordagens na forma de lidar com a população de rua.

Interlocutor:   E o endereço da Igreja Católica?

Pe. Júlio:Você poderia entrar em contato com a Pastoral de Rua, da Arquidiocese de
São Paulo, na Casa de Oração do Povo da Rua. Fica na Rua Djalma Dutra,
3, Bairro da Luz.
Quanto à Toca de Assis, acho que faz parte de um movimento, seja
católico ou evangélico, que está muito presente hoje. Mas, eles não são
homogêneos; são grupos que guardam peculiaridades. A Toca de Assis,
embora seja um grupo muito ligado à Renovação Carismática, ao
Pentecostalismo, a esses movimentos chamados de neo-conservadores,
traz uma característica muito interessante que é a de serem muito jovens,
de viverem com muita radicalidade, e isso atrai muitos jovens. Hoje, são
numerosos. Levam uma vida radicalmente pobre. Dormem apenas no chão e
têm o trabalho de cuidar das pessoas de rua: trocar fralda, limpar,
alimentar, cuidar de pessoas com derrame, com colostomia, traqueostomia,
com sofrimento mental, sofrimento social, com muita dificuldade, alguns
agressivos. Eles cuidam dessas pessoas, vivendo isso como uma grande
beatitude. Vejo muito estes valores: a juventude, a radicalidade
característica e, principalmente, o serviço aos mais pobres, que muita
gente não faz, que é cuidar dessas pessoas.
Agradeço a vocês e peço desculpas porque tenho que sair, pois estou
atrasado. Como é o último encontro de vocês, penso que devem ter muita
coisa para avaliar e planejar para o próximo ano. Desejo a todos, Paz e
Bem!

Transcrição: Ines Polegatto
Edição de texto: Elisabete Santana [MTb 16.435]
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