33º Fórum do Comitê Paulista para Década da Cultura de Paz
um programa da UNESCO

A Televisão e a
(de)Formação de Valores Éticos

Ana Cristina Olmos


A principal fonte de lazer e informação para a infância e a adolescência, atualmente, é
a televisão. Em média, são quatro horas diárias em frente à TV, de onde apreendem e
aprendem valores sobre a vida – mais tempo do que muitos passam na escola ou brincando
com outras crianças ou relacionando-se com outros jovens.

A TV, como uma "boa mãe" oferece sua "companhia" a qualquer hora do dia ou da noite,
nada exige em troca e se confunde com refúgio para os momentos de frustração ou
angústia. De certa forma, em alguns lares, ocupa até muitas das funções maternas. Dá
sentido à realidade, produz o sentimento de "pertença". Chega a ser, para algumas crianças,
o que de mais importante acontece em sua vida durante o dia.

O hábito cria a necessidade. Do ponto de vista cognitivo, a criança se acostuma
passivamente à hiperestimulação sensorial que esse meio proporciona, o que influi na maneira
de captar e na construção da capacidade de perceber e pensar a realidade. Os hábitos
perceptivos, as funções cognitivas e os processos mentais se modificam. Por isso, tantos
adolescentes sentem-se incapazes de ler sem a estimulação sonora, como que para
preencher um vazio. Isso favorece processos mentais diferentes, cria outros tipos de
respostas emocionais e prejudica o raciocínio dedutivo e a reflexão. É assim que trabalha a
publicidade, com seu discurso subjacente.

Os mecanismos de identificação e projeção induzem valores que têm uma adesão
emocional. A partir daí, se constrói um estilo "impulsivo" de escolhas, ao invés de um estilo
reflexivo, que propicia não só o consumo de produtos, mas a atitude que, em última
instância, os torna necessários. Disso também decorre a redução das possibilidades de uma
percepção crítica.

E, como paradoxo, enquanto somente quem sabe ler costuma se apegar à leitura, a
maior dependência (adicção) à televisão ocorre entre aqueles que não dominam sua
linguagem e não conhecem seus códigos. Quanto mais frágil a criança, maior o risco de sua
manipulação.

O alto consumo televisivo pode refletir dependência ao meio. Crianças "viciadas" em
televisão têm risco maior de dificuldades de atenção, memória, concentração e,
eventualmente, bloqueio da expressão verbal, necessária ao aprendizado da linguagem. Do
ponto de vista emocional, assim como há relações entre cognição, comportamento e
emoção, há repercussões no mundo psíquico da criança com relação aos modelos de
identificação veiculados pela televisão.

Quais determinantes participam hoje da produção do universo imaginário infantil? Como
a estética da violência seduz a criança? Quais mecanismos inconscientes promovem os
valores que a televisão transmite? Que impacto causa na construção da identidade do
adolescente a força dos estereótipos do jovem de sucesso com o culto à aparência, os
ideais de consumo, a prioridade do "ter" ao "ser"? Que relações podem existir entre a busca
pela fabricação de um corpo desejável e inverossímil e o aumento da incidência de
transtornos de alimentação na adolescência?

Enfim, uma leitura crítica dos meios de comunicação pode contribuir para um bom uso
da televisão, que mostre à criança a diversidade cultural sem preconceitos, que lhe
apresente modelos de interlocução e tolerância como formas de resolução pacífica de
conflitos, que estimule sua capacidade de pensar e contribua - enquanto meio de educação
- para a formação de valores éticos desde a infância, pré-requisito para o desenvolvimento
global da criança e do adolescente.

Ana Cristina Olmos – Psicanalista de crianças e adolescentes, com especialização em
Neuropsicologia infantil; presidente da ONG TVer, e membro do Conselho de Acompanhamento
da Programação da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

ENTRADA FRANCA

22 de junho de 2004 - terça-feira - 18h

Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo
Auditório Paula Souza

Av. Dr. Arnaldo, 715 - São Paulo - [Estação Clínicas do Metrô]

Realização: Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz
um programa da UNESCO
www.comitepaz.org.br

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