32º Fórum do Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz
- um programa da UNESCO -
 
Em defesa da Utopia
Prof. Dr. Henrique Rattner
 
As incertezas e a perplexidade que afligem a maioria da população, acuada pelos
problemas de sobrevivência, e a urgência com que exigem respostas aos desafios
existenciais constituem um estímulo para pensar criticamente nossa realidade
controvertida e contraditória. Para alguns seria o fim da História, enquanto para outros, é
o início de uma nova fase na evolução da humanidade. Incertezas, instabilidade e
contradições aparentemente insolúveis levam os indivíduos a perder a confiança em si, nos
outros e no governo da sociedade. "Tudo que é sólido, se desmancha no ar" já dizia Marx,
há 150 anos. O desmanche continua desde então, em ritmo e intensidade acelerados,
configurando uma situação de caos. Onde encontrar as respostas às dúvidas existenciais,
às interrogações cruciais de cada indivíduo pensante: Quem somos? Donde viemos? E
aonde vamos?"

Sartre ensinou que os seres humanos nascem para serem livres. Mas liberdade implica
também em responsabilidade. Somos responsáveis pelo que fazemos ou deixamos de fazer.
Agindo e pensando sobre nossa realidade, transformamos essa realidade e a nós mesmos,
encontrando sentido para nossas vidas. Sem uma orientação que guie nossas ações, a
vida no mundo de incertezas torna-se um pesadelo, cheio de paradoxos e violência,
sobretudo para a juventude angustiada e aparentemente incapaz de decifrar enigmas,
para os quais nem a ciência nem a religião oferecem respostas satisfatórias.
A vida nos ensina que elaboramos nossos valores e, com base nestes, em convívio e
cooperação com os outros, encontramos os diferentes sentidos da vida. Não há satisfação
maior para o indivíduo do que quando ele se sente aceito e valorizado, fazendo parte de
um todo maior.

A premissa central de nosso discurso postula, contra qualquer determinismo, que toda a
realidade é uma construção social
e, como tal, pode ser destruída e reconstruída. Os
impactos dramáticos do desenvolvimento desigual, aumentando o fosso entre ricos e
pobres, ajudaram a lançar a reivindicação central de nosso tempo – direitos humanos –
não como uma visão utópica ou idealista, mas como condição básica para a sobrevivência
da sociedade e a sustentabilidade de suas instituições.

Esse é o cerne de uma ética universal que transcende todos os outros sistemas de
crenças e valores, como síntese da consciência humana, ciente da preciosidade de
todas as formas de vida
e da necessidade de cooperação, solidariedade e
interdependência. Essa ética é fundamentada em valores de alcance universal – a
conquista do bem-estar e da felicidade, através da liberdade [no sentido pregado por
Amartya Sem]. Ela se refere a um devir, uma visão do futuro da humanidade que tem
inspirado os pensadores libertários, desde Thomas More, os socialistas utópicos [Fourier,
Saint Simon e R. Owen], até os defensores do socialismo científico, baseado no
materialismo dialético.

O desmoronamento da ex-URSS teria eliminado a utopia do pensamento e das aspirações
contemporâneas?

Henrique Rattner é licenciado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia, com doutorado em
Economia Política [USP] e pós-doutorado em Planejamento Urbano e Regional [MIT/EUA]. Foi
Coordenador do Programa ProLides Brasil da ABDL – Programa de Liderança e Desenvolvimento
Sustentável no Mercosul. É professor titular aposentado da Escola de Administração de Empresas da
Fundação Getúlio Vargas [São Paulo] e da Faculdade de Economia e Administração [USP] e Professor
Emérito da ECEME [Escola de Comando e Estado Maior do Exército]. Foi coordenador do NAMA –
Núcleo de Pesquisa em Economia, Sociedade e Meio Ambiente, coordenador de pesquisas e consultor
de instituições nacionais [CNPq, FINEP, MCT, SEPLAN/SP, SENAI, SEBRAE] e internacionais [ONU,
UNESCO, Banco Mundial]. Publicou mais de 20 livros e mais de 200 artigos em revistas e jornais, nas
áreas de política científica e tecnológica, economia e sustentabilidade.


ENTRADA FRANCA

25 de maio de 2004 - terça-feira - 18h

Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo
Auditório Paula Souza
Av. Dr. Arnaldo, 715 - São Paulo - [Estação Clínicas do Metrô]

Realização: Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz –
um programa da UNESCO
www.comitepaz.org.br
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