30º Fórum do Comitê Paulista para a
Década da Cultura de Paz
– um programa da UNESCO –


Economia Solidária e a Cultura de Paz

Dr. Marcos Arruda


A cultura do Eu-Sem-Nós é o fundamento da guerra, da agressão, da
competição, da violência contra o Outro e contra a Natureza. Ela também pode ser
chamada de Cultura Patriarcal, e tem como emoções que motivam o comportamento
das pessoas o egoísmo ou a consciência "egológica" característica de um Masculino
dominante, o desejo de controle, do poder como um fim e não como um meio, a
hierarquia, o autoritarismo, o dogmatismo, a dominação, de um lado, e a
dependência e a subordinação, do outro. Isto ocorre tanto nas relações
socioeconômicas nos espaços local, nacional e internacional, quanto nas relações
de gênero, nas de caráter interpessoal e na relação do ser humano com a Natureza.
As formas de organização da sociedade centradas no Capital e no mito do Livre
Mercado e do mercado auto-regulado são típicas da Cultura Patriarcal. Esta é, por
sua própria essência, uma cultura de opressão, de injustiça e de guerra. Não será
possível uma Cultura de Paz sem a superação do patriarcalismo.

A história recente está marcada pela tentativa de superar a cultura do Eu-
Sem-Nós através da inversão dos termos, que gerou a Cultura do Nós-Sem-Eu. Esta
é a cultura do extremo coletivismo. Esta cultura resultou no esvaziamento do
projeto socialista, substituindo-se a Sociedade pelo Estado e pelo Partido como
sujeito principal do poder de gestão sobre a Nação e o povo. O resultado foi um
totalitarismo crescente, cuja derrota se deu por implosão e não por intervenção
externa. A cultura do Nós-Sem-Eu também pertence ao universo patriarcal e tem
sido obstáculo a uma Cultura de Paz.

A Economia Solidária emerge, primeiro, como formas associativas e
cooperativas de organização do trabalho, da produção e do consumo com um
objetivo mais imediato de viabilizar a sobrevivência de um crescente número de
pessoas excluídas do mercado capitalista de trabalho e com pouco ou nenhum poder
de compra. A esta modalidade chamamos Economia Popular. Aos poucos foi ficando
evidente que os empreendimentos a nível micro não teria viabilidade se não se
articulassem entre si, formando redes de colaboração solidária. A lógica solidária do
bem comum, do respeito mútuo e da solidariedade vigorando dentro de cada
empreendimento cooperativo, é estendida à relação com todos os outros
empreendimentos cooperativos e atores da Economia Solidária.

Através de redes que promovem o consumo ético, solidário e sustentável,
o comércio justo, as finanças solidárias, a educação para a cooperação e a
solidariedade e a comunicação dialógica e solidária, vamos aos poucos construindo
uma nova economia no interior da velha economia, uma nova globalização
cooperativa, solidária e de paz, capaz de superar a globalização competitiva,
belicista e desumanizadora que prevalece atualmente. Na Economia Solidária
prevalece a cultura do respeito próprio e do Outro, da partilha, da solidariedade, da
compaixão, da partilha, da amorosidade e da paz. Seu fundamento é o paradigma do
Eu-e-Tu, do Eu-e-Nós, do Eu-Contigo e Conosco. Este paradigma está na raiz de
uma Cultura que podemos chamar de Matrística, na qual prevalecem os valores
relacionados com o ambiente da casa e a figura da mãe, com sua consciência
"ecológica", que inclui a todos e a cada um.

Dr. Marcos Arruda é economista e educador do Instituto de Políticas Alternativas
para o Cone Sul (PACS), Rio de Janeiro. É sócio do Instituto Transnacional, com sede
em Amsterdã.

ENTRADA FRANCA

23 de março de 2004 - terça-feira - 18h

Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo –
Auditório Paula Souza
voltar