18° Fórum
20/agosto/2002
Rumo a uma justiça restauradora:
a construção permanente da paz

Dr. Egberto de A. Penido
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* Texto distribuído no dia da palestra
Trecho do artigo intitulado "Ninguém é juiz em causa própria", de Eduardo
Giannetti, publicado na "Folha de S. Paulo".

"A capacidade humana de julgar com isenção tende a declinar à medida que nos
aproximamos de tudo aquilo que nos afeta e interessa de perto. O véu do auto-engano
com freqüência encobre da visão que temos de nós mesmos traços e falhas que saltam
aos olhos quando o que está em tela é o caráter e a conduta dos demais.
A contemplação do mal alheio agride a nossa sensibilidade e nos leva a uma atitude de
genuína reprovação. É fácil como cobrar mais ética na política, clamar contra a mídia
vulgar, acusar a globalização, amar a natureza, detestar o egoísmo ou indignar-se com
o som barulhento do vizinho. Tudo ótimo. O único problema é que o olho de lince no
olhar afora costuma ser apenas o avesso do ponto cego no olhar adentro.
O czar naturalista do poeta Drummond ilustra um caso extremo de assimetria na
percepção do mal: 'Era uma vez um czar naturalista que caçava homens. Quando lhe
disseram que também se caçam borboletas e andorinhas, ficou muito espantado e
achou uma barbaridade'.
O espanto do czar é o reflexo invertido do espanto do leitor. A crueldade do outro,
vista de fora, difere da que cometemos aos olhos dos demais. Os olhos da cobra-verde
não podem se ver nem aterrar a si próprios. A fumaça do carro em que estamos não
nos irrita. O desejo de pensar bem de si próprio torna aceitável e inodoro por dentro
aquilo que fede e revolta vindo de fora.
Até onde podemos ir na expulsão e supressão espontânea daquilo que nos ofende em
nós mesmos?
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Se alguma verdade da ética merece possuir o status e a universalidade da lei da
gravidade na física, o preceito aristotélico que encabeça este artigo (adaptado da
"Política", 1280
a15) é forte candidato ao posto. O grau de isenção dos nossos juízos
morais varia na proporção inversa da intensidade das nossas paixões e do nosso
interesse pessoal no caso. "

Alguns critérios de julgamento:

1.A cada qual a mesma coisa.
2.A cada qual segundo seus méritos.
3.A cada qual segundo suas obras.
4.A cada qual segundo suas necessidades.
5.A cada qual segundo sua posição.
6.A cada qual segundo o que a lei lhe atribui.
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